Junho 2000


Codevasf defende um projeto de desenvolvimento para o Semi-Árido

A Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco (Codevasf), criada em julho de 1974, é uma das pioneiras na irrigação do Vale. “Começamos com a irrigação porque a meta era desenvolver as áreas próximas às margens do rio, mas temos consciência que o problema do Semi-Árido não é só recurso hídrico. É preciso dar as condições de desenvolvimento e isso não se consegue construindo um número de barragens sem fim”, alfineta o assessor da presidência da Codevasf, Rui Junqueira, numa crítica indireta à política de recursos hídricos adotada durante décadas na região.

Depois de 26 anos no Vale do São Francisco, a empresa reconhece que é hora de voltar-se para outras áreas. Entrar mais no Semi-Árido e chegar a locais como o Vale do Parnaíba, rio que a exemplo do São Francisco também é perene (tem água o ano todo). A diretriz faz parte do Projeto Semi-Árido, um conjunto de propostas que não está organizado em um documento, não tem rubrica orçamentária mas que “pretende ser um processo contínuo de planejamento de ações coordenadas para o desenvolvimento da região”.
Em bom português, não se pretende fazer apenas projetos de irrigação vistosos ou construir açudes. Eles seriam o ponto de partida para a implantação de atividades econômicas mais adequadas a cada região, interligação de bacias, captação de linhas de financiamento, capacitação técnica e pesquisa de novas tecnologias.

Para Junqueira, não se trata de elaborar um documento e ... missão cumprida. “Isto era o que se fazia e o pior: ainda tem gente fazendo. Temos que mudar a tecnologia empregada pelo sertanejo. Fazer uma mudança cultural. Transformar o vaqueiro e agricultor ineficiente no produtor globalizado”, prega. O projeto Semi-Árido propõe um planejamento de ações multisetoriais que envolvem várias instituições governamentais, de pesquisa, a iniciativa privada e instituições de financiamento.

Não vai ser uma tarefa fácil. Entre as ações englobadas pelo projeto estão a Ferrovia Transnordestina, a transposição do Rio São Francisco, e a consolidação dos projetos de irrigação do Dnocs, que são ineficientes economicamente porque estão ligados a açudes com baixa oferta de água. Atividades que pressupõem um grande esforço de coordenação, jogo de cintura e muita força política para aparar as arestas que inevitavelmente vão surgir.

Outra dificuldade é a mudança cultural. O sertanejo habituado a esperar, mesmo que por gerações, as soluções do governo será convidado a dar a sua contribuição. A iniciativa privada também, o que exige um certo poder de convencimento e garantias de que os investimentos terão retorno.

As dificuldades não intimidam. Muitas ações apresentadas fazem parte do Avança Brasil e outras estão com verbas incluídas no Plano Plurianual até 2003. O que não quer dizer dinheiro em caixa. Os projetos da Codevasf sofreram uma tesourada no final de maio, com o contigenciamento do Orçamento Geral da União (OGU).

“O projeto ainda está no âmbito da Codevasf. Poderia ser coordenado pela Presidência da República mas não amadureceu o suficiente. Não sei se precisaríamos de uma rubrica orçamentária. Bastava que todos os agentes governamentais tivessem a idéia de trabalhar de forma coordenada e em parceria”. (S.G)

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