Dezembro 2000

 
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Projetos da Chesf resgatam a história com a exploração turística do canyon do São Francisco

CANINDÉ DO SÃO FRANCISCO (SE) - No rastro deixado pelo bando de Lampião ou navegando na rota antes impossível, à jusante da cachoeira de Paulo Afonso, os turistas que visitam o Sertão do São Francisco descobrem que a região da seca, que flagela o Nordeste, tem o antídoto para o próprio veneno. Em torno dos projetos da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf) para produção de energia hidráulica, expande-se o mercado turístico com potencial para atrair 300 mil pessoas em torno de Xingó, entre Sergipe e Alagoas, e a cidade baiana de Paulo Afonso, onde foi montada a primeira usina da Chesf.

Há vinte anos ou até no começo da década de 80, Canindé do São Francisco era uma cidade de 2,5 mil habitantes, na beira do Rio São Francisco. Possuía apenas 120 imóveis, segundo os registros da Chesf, para desapropriação. Inundada pela represa de Xingó, a cidade hoje está localizada a 5 km da margem do Rio, tem 20 mil habitantes, mais de 3 mil imóveis, duas agências bancárias e um hotel cinco estrelas instalado no topo do morro, contornado pelo São Francisco. “O turismo é a nossa salvação”, comemora o secretário municipal de Turismo, Roberto Bezerra.

Vários caminhos asfaltados levam a Canindé do São Francisco, mas nem sempre foi assim. Antes, a única opção era o Rio, atravessando para o lado alagoano até Piranhas. Na subida, a navegação era impraticável, por causa das cachoeiras, até Petrolândia (PE). Em 1856, um visitante ilustre, Dom Pedro II, depois de sacolejar vários dias no lombo de um burro, decidiu autorizar a construção da estrada de ferro para garantir o transporte no trecho do São Francisco.

A ferrovia foi desativada em 1966, mas restaram os imóveis construídos pelos ingleses. O mais importante deles, a estação central, virou museu em Piranhas. Outra estação, em Delmiro Gouveia, cidade alagoana na divisa com Paulo Afonso (BA) e Petrolândia (PE), também transformada em museu, conserva locomotivas maria-fumaça e equipamentos telegráficos. Você ainda pode conhecer pessoas como José Damasceno, 90 anos, celebrizado por ter avisado à polícia, em 1937, sobre a presença de Lampião.

“Coronel Lucena pt Tem boi no pasto pt sargento Aniceto”, informava o telegrama. Lúcido, ele repete o texto e se entrega às recordações. Seu Damasceno mora em Piranhas, mas não é só da história do cangaço que vive o turismo da Região.
Como a Chesf transformou canyon em uma barragem natural para a hidrelétrica de Xingó, o nível do Rio subiu 120 metros e as cachoeiras e pedras desapareceram, abrindo caminho para a navegação. Nos finais de semana, o trecho vira rota de catamarãs e barcos lotados de turistas. O espetáculo que transformou o cenário árido do Sertão sergipano vai atrair este ano 100 mil turistas.

Dádiva do Rio São Francisco, que produz energia, garante a irrigação, sacia a fome e mata a sede, a Região oferece também uma culinária diversificada. Começa com os frutos da terra: bode guisado, galinha à cabidela e umbuzada, espécie de suco preparado com leite de coco catolé. Ou do Rio: a legítima pituzada.

Para chegar a Canindé do São Francisco, em Sergipe, ou Piranhas, em Alagoas, a estrada é uma só, para quem vem de Maceió ou Recife. Da capital alagoana até lá são 280 km em rodovia pavimentada. Do Recife, dá 400 km, mas compensa. Além dos projetos da Chesf, as usinas de Paulo Afonso e Xingó, tem o patrimônio arquitetônico do século 17, época da fundação dos currais de gado no Sertão do São Francisco, e o rio com suas corredeiras e canyon hoje explorados pelo turismo.

As opções de hospedagem também são variadas. Há desde o Parque Hotel Xingó, cinco estrelas e diárias que variam entre R$ 120 e R$ 250,00, ao Hotel Belvedere, três estrelas, de preços acessíveis.(R.V.)

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