Da Ibéria para o Brasil, bonecos gigantes
viram sinônimo de carnaval

Desfile de bonecos gigantes em Olinda

Os bonecos gigantes que vieram do além-mar ao Brasil, há pouco mais de 500 anos, continuam dando passos largos nas ladeiras da cidade histórica de Olinda. Especialmente durante os quatro dias de Carnaval, quando voltam a desfilar entre troças, turistas e entusiasmados foliões.

Eles têm, em média, 3,6 metros de altura e pesam até 50 quilos. O Homem da Meia Noite, por exemplo, criado em 1932 por um artesão conhecido apenas como Severino, pesa 48 quilos. É o mais antigo a circular nas ladeiras da Cidade Alta e foi carregado durante 57 anos pela mesma pessoa, o bonequeiro Cidinho, um senhor de idade que nunca se intimidou com o peso ou com o calor no interior da 'roupa' de gigante (a temperatura vai além dos 40º quando o boneco sai nas ruas).

Bonecos feitos por Sílvio BotelhoOs gigantes mais jovens, como o Menino da Tarde (filho do Homem da Meia Noite e da Mulher do Dia, os dois mais antigos de Pernambuco) são mais leves. Pesam entre 15 e 20 quilos, no máximo. Ao invés de usar madeira, recheio de gesso e outros elementos pesados, Sílvio Botelho, um dos criadores de bonecos mais conhecidos de Olinda e genitor - se é que se pode chamar assim - do Menino da Tarde, adotou materiais como o isopor, o polietileno e a fibra de vidro.

A tradição dos bonecos gigantes, um dos principais cartões postais do carnaval de Pernambuco, veio de longe. Pesquisadores indicam que foi trazida ao Brasil pelos primeiros imigrantes europeus. Sua origem remonta à cidade de Viana do Castelo, região Norte de Portugal, onde eram conhecidos como "gigantones" ou Zés Pereiras. Mas eles também são símbolos presentes em festas espanholas, no carnaval de Nice e na "Micareme" de Paris, na França.

Nos séculos XVII e XVIII, essas figuras disformes abriam a tradicional procissão do "Corpo de Deus", em Lisboa, Flandres (região então sob domínio espanhol) e toda a Espanha. Eles eram vestidos com roupas mouras - em referência à retomada de Granada - e, à frente da procissão, simbolizavam a expulsão dos árabes e a reconquista da Península Ibérica pelos cristãos.

Os bonecos deixaram de ser usados no evento de rua no século XVIII, mas ainda podem ser encontrados em quase todas as festas populares espanholas, desde a Catalunha até a Andaluzia, especialmente nas regiões mediterrâneas. Em Portugal, os "gigantones" que sobreviveram ao tempo começaram a desaparecer a partir de 1985 - quando a última das criadoras morreu, sem deixar escola. Mas, vez ou outra, eles ainda são vistos na cidade de Viana do Castelo. As cabeças e mãos são feitas de papelão pintado. O corpo é sustentado por uma armação de madeira, conhecida como canastra. Têm aproximadamente 20 quilos e durabilidade de cinco a seis anos, apenas.

 

 

 


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