| |
Tudo
começou na Orla Orbe. Não é nenhum barzinho à
beira-mar do Recife, mas o nome da primeira banda da qual Francisco de
Assis França fez parte, nos idos de 1987. Nessa época, ele
ainda não era Chico Science, mas sua inventividade já se
anunciava, alimentada pela participação, três anos
antes, na Legião Hip Hop, um grupo de dança de rua no qual
grafiteiros, músicos e dançarinos curtiam o melhor da música
negra norte-americana.
A black music também era a base do Loustal, grupo posteriormente
formado por Chico e seus amigos Lúcio Maia e Alexandre Dengue.
O nome é homenagem ao quadrinista francês Jacques de Loustal,
cujo trabalho era apreciado por Chico. O hip hop da Legião e o
funk e o soul da Orla Orbe eram alguns dos elementos misturados pelo Loustal,
que se utilizava também de rock e ska.
No início de 91, Chico Science entrou em contato com o Lamento
Negro, um bloco afro que trabalhava com educação popular
no centro comunitário Daruê Malungo, periferia do Recife.
O vigor da percussão chamou a atenção do cantor,
que começou a trilhar rumo distinto, misturando num mesmo balaio
black music e música de raiz, como maracatu e coco de roda - eis
aqui o embrião do que se batizou manguebit.
Nesse mesmo ano, nada mais de Orla Orbe ou Loustal, a galera atendia pelo
nome de Chico Science e Lamento Negro: a Chico (voz), Lúcio (guitarra)
e Dengue (baixo) juntaram-se Toca Ogam (percussão/efeitos), Canhoto
(caixa), Gira (tambor), Gilmar Bola 8 (tambor) e Jorge du Peixe (tambor).
Canhoto não ficou muito tempo, sendo substituído por Pupilo.
O público assistiria, em junho, ao primeiro show da banda - já
conhecida como Chico Science e Nação Zumbi (CSNZ) - no Espaço
Oásis, em Olinda. A partir daí, várias outras apresentações
aconteceram, junto com outros grupos do Recife como o mundo livre s/a.
A turma reunia os tipos mais diversos, músicos, jornalistas, artistas
plásticos, punks... O elo entre todos era o gosto por música,
fosse qual fosse o tipo ou a origem. Os jornais locais começavam
a abrir espaço e a designar a cena musical que fervilhava no Recife
sob o rótulo de mangue ou manguebit.
Uma
coletânea começou a ser elaborada em 92, com músicas
de CSNZ e mundo livre s/a, batizada de Caranguejos com Cérebro
- o mesmo nome de um manifesto
escrito por integrantes do manguebit. O projeto não deu certo e
as bandas se organizaram para fazer uma pequena excursão pelo Brasil.
Três shows em São Paulo e Belo Horizonte foram suficientes
para chamar a atenção de crítica e público
e para fazer a Sony Music elaborar uma proposta de contrato. No final
do ano, o grupo entrava no estúdio Nas Nuvens acompanhado do produtor
Liminha para gravar o primeiro disco.
Da Lama ao Caos chegou ao mercado nacional em 94. O CD conseguiu arrebatar
os críticos dos principais cadernos culturais do Brasil, levando
também o público ao delírio, apesar de, em algumas
faixas, deixar de lado a força que a Nação Zumbi
demonstra no palco. Mas os shows não eram mais problema: a banda
começou a excursionar e mostrar as histórias do mangue mundo
afora. Participando de festivais nos Estados Unidos ou fazendo shows pela
Europa, CSNZ foram deixando sua marca por onde passavam, preparando o
terreno para novas idéias - e para o novo disco.
Um grupo mais maduro voltou ao Nas Nuvens em 96, para gravar Afrociberdelia.
Deixando o produtor de lado e assumindo o comando do disco, a Nação
deixou que pitadas eletrônicas permeassem o CD, que conta com diversas
participações especiais, entre elas Gilberto Gil, Fred 04
(mundo livre s/a) e Marcelo D2 (Planet Hemp). A estrada foi a casa da
banda durante esse ano: novamente Estados Unidos, novamente Europa, novamente
o Brasil - e todos se impressionavam com o batuque dos tambores de Chico
Science e Nação Zumbi.
O
ano de 97 chegou para mudar radicalmente a trajetória da banda.
Num acidente de carro na fronteira entre o Recife e Olinda, Chico Science
morreu, às vesperas dos shows que o grupo faria no carnaval. A
estupidez do fato chocou a todos e fãs desolados choravam em todo
o País, questionando a injustiça: por que morrer, aos 33
anos, um cara que ainda tinha tanto para fazer, que tinha muito a dizer?
A precocidade, antes de mais nada, colocou o nome de Chico no panteão
dos artistas-mito.
A Nação Zumbi, no entanto, se viu zonza, perdida, e levou
bom tempo para achar o norte novamente. Muito se especulou sobre a continuidade
da banda: uns diziam que seria impossível sem o vocalista, outros
acreditavam que, se continuassem, não chegaria aos pés do
que o grupo era com Chico nos microfones. Depois de um "CD tributo"
- CSNZ, de 98 -, o grupo lançou no ano passado o disco Rádio
S.AMB.A. Saindo da supervisão de uma grande gravadora, o disco
foi autoproduzido e saiu pela Y?Brazil Music: elogios e críticas
apareceram, exaltando o fôlego da Nação de seguir
adiante, longe da sombra de Chico Science.
|
|