06-06-2000
A Anatel


Qual o papel das agências reguladoras? Criadas à imagem e semelhança de suas congêneres norte-americanas, as agências sofrem do mesmo mal: falta de poder para punir as empresas infratoras. A Federal Communications Commission (FCC), agência norte-americana na qual o governo se inspirou para criar a Anatel, foi por muitos anos um apêndice de grandes corporações, como a RCA, que, inclusive, indicavam seus diretores.

Um caso notório desse tipo de influência foi a mudança da faixa de operação dos sistemas de modulação em freqüência (FM), de 40 MHz para a atual, entre 88 e 108 MHz, para atender a um capricho do então presidente da RCA, David Sarnoff, que não queria a concorrência da estação de rádio de Howard Armstrong, um dos maiores inventores americanos, com a televisão patrocinada pela RCA.

No Brasil, essas agências estão sendo criadas para atender a interesses diversos, como alojar o genro do Presidente da República, como colocou o ex-Presidente Figueiredo, servir como prêmio para funcionários dedicados ao processo de privatização, atender aos políticos ansiosos por cargos, servir como passo final para uma boa aposentadoria ou vitrine para contratação de funcionários pelas empresas, agir como escudo das empresas para as reclamações dos usuários e, principalmente, para atuar como cartórios no novo modelo de gestão mínima do governo.

Elas só não estão cumprindo seu papel principal - atuar como reguladoras nos setores que representam. A Anatel, apesar de ter sido criada pela Lei Geral das Telecomunicações, em 1997, ainda não conta com funcionários concursados e, apesar da boa vontade de seu presidente, Renato Guerreiro, que deve ser reconduzido para outro mandato, não funciona como deveria, defendendo os interesses dos usuários. As punições são, convenientemente, esquecidas depois que a imprensa deixa de noticiar as infrações cometidas pelas empresas. As tarifas aumentam bem acima da inflação e o serviço deixa a desejar em termos de qualidade e satisfação do cliente.

A Anatel com como missão "Promover o desenvolvimento das telecomunicações do País de modo a dotá-lo de uma moderna e eficiente infra-estrutura de telecomunicações, capaz de oferecer à sociedade serviços adequados, diversificados e a preços justos, em todo o território nacional". Ela funciona como autarquia especial, com administração independente e autonomia financeira. Suas decisões só podem ser contestadas judicialmente e seus dirigentes têm mandato fixo e estabilidade.

A agência tem como principais atribuições: implementar a política nacional de telecomunicações; propor a instituição ou eliminação da prestação de modalidade de serviço no regime público; propor o Plano Geral de Outorgas; propor o plano geral de metas para universalização dos serviços de telecomunicações; administrar o espectro de radiofreqüências e o uso de órbitas; compor administrativamente conflitos de interesses entre prestadoras de serviços de telecomunicações; atuar na defesa e proteção dos direitos dos usuários; atuar no controle, prevenção e repressão das infrações de ordem econômica, no âmbito das telecomunicações; estabelecer restrições, limites ou condições a grupos empresariais para obtenção e transferência de concessões, permissões e autorizações, de forma a garantir a competição e impedir a concentração econômica no mercado e estabelecer a estrutura tarifária de cada modalidade de serviço prestado em regime público.

A Anatel tem uma página na Internet que é praticamente inacessível, pela lentidão com que opera, e um serviço de atendimento telefônico que não resolve os problemas mínimos dos usuários. A agência se ressente da falta de engenheiros para fiscalização das empresas e para a elaboração de normas que regulem a operação dos sistemas de telecomunicações. Em que pese a boa vontade dos funcionários da agência, ainda falta muito para o País ter um serviço de comunicações de classe mundial.

*Marcelo Sampaio de Alencar é professor titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal da Paraíba.

 

Coluna atualizada às segundas