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07-08-2001
Comunicações, ministérios e candidaturas presidenciais

Quando se observa com cuidado a cena política, encontram-se relações
inusitadas entre setores aparentemente não correlacionados. Uma parcela das mudanças que estão ocorrendo no Ministério das Comunicações, com reflexos na Anatel, se devem a alterações, ou sua ausência, articuladas por outros ministros do Governo Federal.

O ministro João Pimenta da Veiga Filho, um dos virtuais candidatos do PSDB à Presidência da República em 2002, está promovendo mudanças
conceituais na forma como as concessões de rádio televisão deverão ser feitas ainda em sua gestão. A idéia é voltar ao antigo sistema de privilegiar a componente política, em detrimento da técnica, no processo de concessão.

O Ministério das Comunicações é composto, basicamente, de três secretarias: a Secretaria Executiva, a Secretaria de Serviços Postais e a
Secretaria de Serviços de Radiodifusão, além da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos e da Anatel. Evidentemente, a Anatel, que na concepção original de Sérgio Motta seria responsável por tais concessões, perde com o novo anteprojeto de radiodifusão, visto que os poderes passam diretamente para o Ministro.

Algo similar está ocorrendo com o Ministério da Educação (MEC), no qual o ministro Paulo Renato Souza, também provável candidado e preocupado com a parcela de poder amealhada por seus colegas, diminui as funções do Conselho
Nacional de Educação (CNE), para aumentar seu poder pessoal e suas chances de ser o candidato do PSDB.

O CNE teria a função de agência do MEC, algo equivalente à Anatel para a educação, no novo modelo definido pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso, no final da década passada, de privilegiar a criação de entidades técnicas,
chamadas agências, para regulamentar as concessões, licenças e autorizações a
cargo do Governo Federal. O idealizador do modelo, Sérgio Motta, por sinal, previa a extinção do Ministério das Comunicações, quando a Anatel adquirisse controle sobre a radiodifusão e correios. Caso o modelo tivesse sucesso, o País passaria a ser gerido por departamentos, composto de agências, como nos Estados Unidos.

O Ministério da Saúde, comandado por José Serra, tem o Conselho Nacional de Saúde, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária e a Agência Nacional de Saúde Suplementar, que não têm os mesmos poderes da Anatel, o que
permite ampla visibilidade para o ministro. Serra mantém certa discrição em contraste com Pimenta da Veiga e Paulo Renato, porque sabe que é o mais cotado atualmente e não quer se expor muito faltando mais de um ano para a eleição. Aposta mais na divulgação que obtém na imprensa com os programas do Ministério.

Por outro lado, o Ministério da Fazenda, a cargo de Pedro Sampaio Malan, conta com o Banco Central, Banco do Brasil, Caixa Econômica, além de diversas secretarias e conselhos, mas apenas Arminio Fraga Neto lhe faz sombra em termos políticos. Evidentemente, Malan não tem interesse em um Banco Central independente, sua principal agência, o que diminuiria seus poderes como ministro e suas chances de chegar à Presidência. Malan está sempre exposto
à mídia, por conta dos percalços da economia nacional, da vizinha Argentina, ou em virtude de seu sorriso enigmático, tipo Mona Lisa, que faz a festa dos cartunistas.

Finalmente, a instalação de computadores nas escolas de primeiro e segundo graus, com ligação à Internet e financiamento do Fundo de
Universalização das Telecomunicações (Fust), por ser um programa com apelo popular, pode levar a um confronto entre Paulo Renato e Pimenta da Veiga. O Fust é prerrogativa do Ministério das Comunicações, com interveniência da Anatel, mas envolve o Ministério da Educação. Em época de eleição, é possível até que outros candidatos adiram à Internet para amealhar votos. Entretanto, é uma pena que o Brasil não disponha de um organograma imune às idiossincrasias políticas que acompanham os períodos eleitorais.

* Marcelo Sampaio de Alencar é professor titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal da Paraíba.

Coluna atualizada às terças