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07-11-2000
A
telefonia no início do século
Para
muitos, as empresas de comunicações no Brasil sempre
foram
estatais. Essa ilusão foi alimentada pela propaganda que
precedeu a venda das empresas do governo, conhecida como campanha
da privatização, e
financiada por diversos grupos interessados em adquirir as estatais,
ou participar de alguma forma do lucro que seria obtido com a venda
do espólio.
Diversas
entidades foram criadas ou orientadas para essa finalidade, incluindo
associações, jornais e revistas - lembrando a época
em que os
governos militares estimulavam a criação de mecanismos
similares para dar credibilidade ao regime. A verdade, no entanto,
sempre foi outra. Desde o início, as empresas de comunicações
sempre estiveram, na sua maior parte, em mãos privadas.
Em 1901, no governo de Campos Sales, instalava-se em São
Paulo a empresa
canadense Tramway Light and Power Company, que havia começado
a exploração dos
recursos hidro-elétricos do Sudeste em 1899, com a construção
de usinas na Serra do Mar. Com sede em Toronto, essa companhia viria
a monopolizar diversos serviços públicos em São
Paulo e no Rio de Janeiro, inclusive comunicações.
Três anos depois, a Light se instalaria no Rio de Janeiro,
por intermédio de uma associação entre o empresário
americano Percival Farquhar e Alexander Mackenzie.
Em 1913, o serviço telefônico se dividia entre federal
e privado. O Governo Federal dispunha de linhas no Rio de Janeiro,
que também se ligavam a Petrópolis, Niterói
e Teresópolis. Havia 25 companhias privadas no Rio Grande
do
Sul, 14 em São Paulo, 10 no Rio de Janeiro e outras no Piauí
(3), Bahia (2),
Minas Gerais (2), Maranhão (2), Ceará, Pernambuco,
Alagoas, Espírito Santo e no
Paraná (1).
No
ano fiscal de 1913, a renda bruta com os sistemas telefônicos
brasileiros chegou a US$ 1,500,000, enquanto os sistemas telegráficos
deixaram um bruto de US$ 4,045,000. Isso dava um ganho de US$ 47.50
por telefone,
comparado com US$ 33.00 nos Estados Unidos.
Em
primeiro de janeiro de 1914, o Brasil dispunha de 39.183 telefones,
dos quais 1.165 estavam nas mãos do governo, algo em torno
de 2,9% do total, e todo o restante com as companhias privadas.
Isso dava uma percentagem de 0,26% da telefonia mundial, com 0,2
telefones por 100 habitantes no País. Os Estados Unidos já
contavam com 9.542.017 telefones e 64,09% de todos os telefones
do planeta.
O
investimento no sistema telefônico brasileiro, em 1 de janeiro
de 1914, totalizava US$ 11,013,800, correspondendo a 0,53% do total
mundial e a US$ 281.00 por telefone instalado. Esse investimento
por telefone era muito
elevado, se comparado com os US$ 121.00 gastos pelos americanos,
somente superado pelo custo de instalação na Bósnia
(US$ 350.00) e na Africa do Sul (US$ 303.00).
Quase
um século depois, e após um intervalo de 25 anos nas
mãos do governo, entre 1972 e 1997, as empresas operadoras
de comunicações estão novamente privatizadas.
Os custos, como há 90 anos, continuam elevados. O ganho bruto
por telefone não é muito diferente daquele que era
obtido quando havia menos de 40 mil terminais em todo o País.
Com a vantagem de haver, hoje, mil vezes mais telefones a dar lucro.
*Marcelo
Sampaio de Alencar é professor titular do Departamento de
Engenharia Elétrica da Universidade Federal da Paraíba.
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