08-08-2000
O Marechal Rondon

Todo povo precisa de heróis - aqueles semi-deuses de carne e osso que dedicam a vida a causas nobres e, por vezes, morrem por elas. Poucos conseguem esse status no Brasil - e aqueles que o adquirem não chegam a influenciar como exemplo às novas gerações, porque a história nacional, no tocante às comunicações, é completamente desconhecida do público em geral e pouco ensinada nas escolas e universidades. Enquanto os primeiros passos do Brasil, na área, são relegados ao esquecimento, os feitos estrangeiros são exaltados, passando a dominar completamente o ambiente histórico. Investigar nosso passado, nessa área, é de suma importância para o melhor entendimento da conjuntura atual.

Cândido Mariano da Silva Rodon foi um desses abnegados heróis. Nasceu em 1865 e viveu 93 anos, até falecer em 1958. Era bacharel em ciências f ísicas, naturais e matemáticas, pela Escola Militar do Rio de Janeiro, e licenciado como professor primário. Filho de família pobre, acabou obtendo a educação superior em uma escola militar, como ocorria aos que não tinham condição financeira para freqüentar as escolas civis. Sob orientação de Benjamin Constant, que ocupou o primeiro ministério a cuidar especificamente da área de comunicações, foi iniciado na doutrina positivista.

O próprio Benjamin Constant nomeou Rondon como professor assistente na Escola Militar em 1891. No entanto, Gomes Carneiro, Chefe da Comissão de Construção de Linhas Telegráficas, o convenceu a deixar o magistério e dedicar-se ao trabalho de instalação de linhas e estações telegráficas no interior do País.

Affonso Penna, que assume a Presidência em 1906, mantém o plano de integrar o Brasil por meio da telegrafia. A Comissão Rondon avança então, em 1907, nas obras de construção das linhas telegráficas que ligariam o Rio de Janeiro ao Acre, Mato Grosso e Amazonas. Infelizmente a reserva dos Nambiquara, que até 1907 não havia sido contactada por outros povos, acabou sendo atravessada pela linha telegráfica que ligava Cuiabá aos postos da fronteira noroeste do País, até então somente acessível por meio de uma longa viagem pelo rio Amazonas. O contato com a "civilização" acabou reduzindo essa tribo de fazendeiros rudimentares de 10 mil a, aproximadamente, mil habitantes.

O telégrafo elétrico já se espalhava por 31.000 km de linhas em 1911, em pleno governo Hermes da Fonseca. O marechal Rondon promoveu, em paralelo com a construção das linhas telegráficas, uma expedição científica de estudos geológicos, da fauna, flora e etnologia do Brasil Central e da Amazônia. Aproveitou seus conhecimentos, como professor interino de Astronomia, professor repetidor de Mecânica Racional e professor substituto de Matemática Superior, para realizar as medidas e os cáculos astronômicos que permitiram determinar a latitude e longitude de mais de 200 localidades da Região Norte do Brasil.

Rondon, que trabalhou na construcão de linhas telegráficas até 1920, quando passou a dedicar-se a outros serviços de natureza militar ou diplomática, é considerado o Patrono das Comunicações no Brasil e o Prêmio Rondon é, ainda hoje, a maior comenda concedida na área de comunicações no País.

*Marcelo Sampaio de Alencar é professor titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal da Paraíba.

 

Coluna atualizada às segundas

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