09-05-2000
Padronização de sistemas celulares


Padrões são importantes para os usuários de telecomunicações porque garantem a compatibilidade entre os sistemas e permitem a economia de escala, que faz os preços baixarem. Esse padrões podem ser nacionais ou internacionais. Os padrões internacionais são estabelecidos por organismos como a União Internacional de Telecomunicações (UIT). As normas nacionais são ditadas pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).

Os Estados Unidos adotaram, em 1979, o padrão Advanced Mobile Phone System (AMPS), com acesso por divisão em freqüência (FDMA), para comunicações móveis. Dez anos depois, em função da necessidade de ampliar a canalização, a Federal Communications Commission (FCC) aprovou o padrão IS-54, conhecido com DAMPS, que usa acesso por divisão em tempo (TDMA). Pouco tempo depois, a Comissão aprova o padrão IS-95, que introduz o acesso por divisão em código (CDMA). Nesse período, ainda entraram em funcionamento no país os sistemas de faixa estreita (NAMPS) e o europeu Global System for Mobile Communication (GSM).

O Brasil adotou uma estratégia semelhante àquela dos Estados Unidos, em menor escala, e acabou com um conjunto de padrões distintos também. O País convive com interfaces aéreas com padrões de acesso FDMA, como o AMPS, TDMA, caso do IS-136, e CDMA, como o cdmaOne. Houve uma tentativa da Telebrás de unificar o padrão de telefonia celular, por volta de 1994, mas foi abortada pelo Governo. A Europa, por outro lado, começou com diversos padrões - praticamente um por país - e terminou unificando-os no padrão GSM, no início da década passada.

A adoção de padrões distintos pode beneficiar fornecedores de equipamentos, que aproveitam para vender gerações sucessivas de sistemas, mas prejudica os usuários - que arcam com os custos de aquisição de telefones celulares nem sempre compatíveis e o com pagamento de serviços caros, porque não se beneficiam da economia de escala.

No momento, a Anatel promove uma discussão sobre a utilização da chamada Banda C da telefonia celular. Há uma polêmica acerca de qual faixa de freqüências usar, se a faixa em torno de 1,8 GHz ou aquela em torno de 1,9 GHz. Do ponto de vista operacional, não há diferença entre as faixas. O que está em jogo, na realidade, é a adoção do padrão americano ou europeu.

O Brasil sempre manteve certo alinhamento, na área de comunicações, com os europeus. Os padrões adotados aqui têm sido, por muito tempo, compatíveis com os utilizados na Europa. A mudança de comportamento ocorreu apenas com a chegada da telefonia celular, de forma não planejada, e a adoção de padrões norte-americanos. A Ericsson, gigante europeu na área de telecomunicações, apostou no sistema americano e dominou a telefonia celular por toda a década de 90 no Brasil. A Siemens, que pretendia implantar o sistema europeu em parceria com a Ericsson e acabou ficando fora do mercado de celulares do País, volta com renovadas energias para pressionar pela faixa de 1,8 GHz. A Lucent e outras empresas americanas querem a Banda C na faixa de 1,9 GHz.

Uma decisão final deve ser tomada pela Anatel até o segundo semestre. Para o usuário fica apenas a esperança que o País adote, finalmente, um padrão único para a telefonia celular digital.

*Marcelo Alencar é professor titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal da Paraíba.

Coluna atualizada às terças