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09-10-2001
A telegrafia no século 19 - I parte


Não há previsões para o futuro da telegrafia, porque ele está sendo
substituído pelos serviços de transmissão de dados e pelo correio
eletrônico. Destino similar já havia acometido o serviço de telex, cujas teleimpressoras serviam, também, bem no início da era dos microprocessadores (quando eles ainda eram chamados assim), de interface amigável para entrada de dados.

O paradoxo de ter participado do parto dos computadores pessoais pesa sobre a lápide do telex. A popularização dos computadores extinguiu os dois serviços. A telegrafia, em particular, um dos serviços de telecomunicações mais usados pela população em toda a história da transmissão radioelétrica, teve uma longa vida de mais de um século e meio. Esta série de
três artigos lhe serve como exéquias.

As primeiras linhas telegráficas do País datam de 1852, poucos anos após a introdução do telegráfo nos Estados Unidos por Samuel Morse. A instalação dessas linhas foi devida aos esforços do então Ministro da Justiça, Eusébio de Queiroz Coutinho Mattoso Câmara, com o auxílio de um proficiente e dedicado professor de física da Escola Central, Dr. Guilherme Schüch de Capanema.

Antes disso, só se conheciam os telégrafos óticos, empregados quase que exclusivamente no serviço marítimo, no Rio de Janeiro e em algumas províncias. Os primeiros ensaios com os telégrafos elétricos não passaram da capital do
Império, onde se inaugurou a primeira linha telegráfica, subterrânea, ligando a Quinta Imperial de São Christovão ao Quartel General do Campo de Sant'Anna, no de 11 de maio de 1852. Outras linhas foram construídas depois, para ligar repartições e estabelecimentos públicos.

A 17 de março de 1855 o Dr. Capanema foi nomeado diretor geral dos Telégrafos Elétricos, com a gratificação anual de 1:200$ reis, além de
cavalgaduras e forragens que lhe competiam em comissão ativa. Nessa mesma data, foram expedidas instruções provisórias para execução do serviço, as quais mandavam dar pronto cumprimento ao aviso de 17 de janeiro do ano anterior, que determinavam o prolongamento da pequena rede existente.

O primeiro regulamento expedido para a Repartição dos Telégrafos Elétricos foi o decreto n. 2.614 de julho de 1860. Por um decreto legislativo, de 28 do mesmo mês, esse serviço foi transferido do Ministério da Justiça para o da Agricultura, Comércio e Obras Públicas. Esse regulamento criava alguns cargos já exigidos pelo desenvolvimento do serviço, melhorando
para 1:800$ reis a gratificação anual do diretor. As linhas ficavam franqueadas ao público, mediante o pagamento da taxa fixada. Com o decreto n. 3.288, de 20 de julho de 1864, baixou novo regulamento para a Repartição, a qual foram incorporados os telégrafos óticos.

À proporção que os serviços foram se desenvolvendo, novas reformas foram introduzidas. A partir de 1864, foram ainda expedidos regulamentos para a Repartição. O primeiro regulamento estabelecia os seguintes cargos: um diretor geral, um ajudante, um encarregado geral das linhas, um escrituário, um zelador de pilhas, um encarregado de arrecadação, treze estacionários, treze adjuntos
e dois carteiros. Criava também uma aula telegráfica. O de 1864 criou a oficina para consertos de aparelhos, e para o serviço das linhas engenheiros e guardas.

No regulamento de 1870, apareceram mais: o vice-diretor, o secretário, o contador, o desenhista, escrivão, inspetores de linhas e os chefes de estação, depois chefe de serviço e telegrafistas chefes; no de 1881, o chefe de
contabilidade, que depois foi suprimido, o caixa de seus fiéis, o porteiro, o chefe e o auxiliar do arquivo técnico, os feitores. Em 1890, foi criada a Seção Técnica.

Em 1861 compunha-se o pessoal da Repartição de 34 pessoas. Vinte anos depois, só as linhas e estações ocupavam 1.081 empregados, a saber:
3 encarregados gerais, 6 engenheiros, 56 inspetores, 40 feitores, 677 guardas e trabalhadores, 3 chefes de estação, 182 estacionários, 81 adjuntos, 6 adjuntas e 27 supranumerários.

A rede telegráfica não passou, até 1855, do perímetro da cidade do Rio de Janeiro. À primeira linha, que ligava a Quinta Imperial ao Quartel General, seguiu-se a construção de outras, destinadas à comunicação entre repartições
públicas. A Estação Central só foi inaugurada em agosto de 1864.

* Marcelo Sampaio de Alencar é professor titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal da Paraíba.

Coluna atualizada às terças