11-07-2000
A Internet no Brasil


O advento das redes de comunicações de dados tem sido responsável por uma verdadeira revolução no mundo da informática, com repercussões em todos os setores da sociedade moderna. Em linhas gerais, essa revolução pode ser descrita como a democratização da informática, por trazer em seu interior o potencial de acesso universal aos sistemas computacionais existentes no planeta e às informações neles armazenadas.

O principal veículo dessa revolução tem sido a rede de pesquisas Internet que, no Brasil, está representada pela Rede Nacional de Pesquisas (RNP). A implantação da RNP tem sido realizada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), utilizando a infra-estrutura de serviços da Embratel. Atualmente, existe uma espinha dorsal, (backbone) da RNP, interligando alguns centros regionais no País, dos quais partem ligações para outros pontos de acesso à Rede. Há pontos de acesso em cada Estado, fornecidos pelo CNPq, cabendo a cada um o desenvolvimento das sub-redes estaduais.

A Internet conta hoje com algo em torno de seis milhões de usuários no País, dos quais 85% acessam a rede do escritório - o que pode denotar uma grande oportunidade para negócios ou pouco trabalho sendo realizado na hora do expediente! Em todo caso, há estimativas de que as transações comerciais via Internet cheguem a R$ 7 bilhões até 2003, no Brasil, correspondendo a 7% de todo comércio eletrônico do mundo. E tudo isso não existia há pouco mais de dez anos - ao menos, para o internauta ocasional.

O embrião da rede nacional começou com o projeto Ciranda da Embratel, no início da década de 80, quando a empresa logrou estimular a cultura de computação entre seus empregados financiando, a preços módicos, a aquisição de computadores - na época, o famoso CP-500 da Prológica. Os Estados Unidos já operavam a Arpanet e a França pensava em seu sistema Minitel. Foram adquiridas milhares de máquinas - que acabaram vendidas pelos empregados, pouco esclarecidos sobre sua real utilidade, numa época em que a máquina de escrever reinava nos escritórios.

A segunda tentativa da Embratel foi o projeto Cirandão, dessa feita com interesse comercial, visando à ligação de todos os distritos da empresa por meio de uma rede no padrão X-400. A Embratel tinha a Rede Nacional de Pacotes (Renpac) e precisava promover sua utilização. Em meados da década de 80, foi lançado o Sistema de Transmissão de Mensagens (STM-400), numa tentativa de popularizar o uso da rede para o transporte de mensagens - setor ainda dominado pelo Telex. Algum marketing chegou a ser feito em torno do serviço - mas com pequena eficiência. O público típico de rede ainda não havia sido atingido.

Ao final da década, finalmente, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) se estabelece como ponto de entrada da Bitnet (Because It´s Time Network) no País, custeando as ligações via Embratel (o que era conhecido na época como tarifação reversa). Dessa forma, os serviços de rede chegaram às universidades - e atingiram um público mais acostumado a inovações.

No caso específico das empresas de telecomunicações, o desenvolvimento dessa cultura de rede nas universidades teve como contrapartida o fomento a um potencial de consumo de serviço telemáticos por parte dos futuros engenheiros, a formação de mão-de-obra qualificada para a prestação desses serviços e o efeito multiplicador que isso provocou na sociedade como um todo. Atualmente, a RNP está sofrendo mais uma expansão visando à Internet 2, para criação da RNP2 com uma taxa de transmissão que deve chegar a 155 Mbits/s no backbone.

A Embratel, que custeou uma parcela do desenvolvimento dessa cultura no País, tentou na década de 90 ser o grande provedor da rede - mas era tarde demais. A caixa de Pandora estava aberta e a briga por esse controle com o Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT) apenas desgastou a imagem da empresa, que se contenta hoje, pelo menos, com o incremento de tráfego propiciado pela Internet.

*Marcelo Sampaio de Alencar é professor titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal da Paraíba.

 

Coluna atualizada às segundas