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11-09-2001
A vocação secular do País


O grupo canadense Brascan pretende criar uma subsidiária no Brasil, para a construção de usinas hidroelétricas. O grupo está aguardando o leilão da Annel para iniciar os projetos de usinas de grande porte, prevendo investimentos de US$ 500 milhões até 2005, quando espera ter uma planta de 500 MW, produzidos por 18 usinas.

A notícia acima passaria despercebida para um leitor interessado em comunicações, em virtude do investimento não ser volumoso, para os padrões nacionais de inversão de capital em geração de energia, e pela aparente ausência de correlação entre as áreas de energia e comunicações. Não é bem assim, como mostra a história.

Em 1901, no governo de Campos Sales, instala-se em São Paulo a empresa canadense Tramway Light and Power Company, que havia começado a exploração dos recursos hidro-elétricos do Sudeste em 1899 com a construção de usinas na Serra do Mar. Com sede em Toronto, essa companhia viria a monopolizar diversos serviços públicos em São Paulo e no Rio de Janeiro - inclusive comunicações.

Três anos depois a Light, como ficou conhecida, se instalaria no Rio de Janeiro, por intermédio de uma associação entre o empresário americano Percival Farquhar e Alexander Mackenzie. Esse mesmo empresário americano, segundo Darcy
Ribeiro, se envolveria, no futuro, em diversos empreendimentos polêmicos e, eventualmente, danosos à economia nacional.

Em 1912, as subsidiárias canadenses do Rio e São Paulo se fundem para formar a Brazilian Traction, Light and Power Co. Ltd. (Light) como fim de explorar os serviços de bondes e de telefonia. Por volta de 1940, a Light e a
American and Foreign Power Co. juntas produziriam 80% de toda a energia
consumida no País. As empresas multinacionais não estavam exatamente interessadas na extinção de monopólios de serviços públicos. A Light, por exemplo, detinha os monopólios de serviços de energia, luz, gás, bondes e
telefonia no Rio de Janeiro e em São Paulo. Eurico Gaspar Dutra não parecia preocupado com essa exploração dos serviços públicos por empresas estrangeiras.

Mais tarde, a Brazilian Traction, Light and Power Co. Ltd. se transformaria na Brascan Ltda. e começaria a diversificar seus investimentos
no Brasil. Em 1965, a expansão da Brascan envolveria os setores bancário, de alimentação e bebidas, madeira, veículos, mineração, têxteis e agricultura. Em 1974, a Brascan seria a maior companhia estrangeira operando no País.

Em 1979, no início do governo de Paulo Maluf como governador biônico de São Paulo, o País se espantaria com a compra da Light por mais de um bilhão de dólares. Como dizia Darcy Ribeiro, em seu interessante livro "Aos Trancos e Barrancos", terminava de forma escandalosa quase um século de exploração estrangeira de serviços públicos no Brasil, com a conivência de
diversas personalidades brasileiras como Otávio Gouveia de Bulhões, Rafael de Almeida Magalhães, Roberto Campos e Antonio Gallotti. O grupo de Roberto Campos e Otávio Bulhões já havia reavaliado os ativos da Light logo após o Golpe de 64, quando também se concedeu a elevação de tarifas e sua correção automática à empresa.

Esses ativos se convertiam em imensos passivos para a Nação, pois as concessões da Light para o Rio e São Paulo terminariam respectivamente em 1980 e 1981. O vencimento das concessões implicaria na entrega total das instalações, visto que nos quase 80 anos de exploração de serviços no País a Light havia remetido anualmente as taxas de amortização do investimento, além dos lucros.

Desde 1975, a Light se preparava para a venda de suas subsidiárias. Inicialmente com o aumento no endividamento externo da empresa, que passou de menos de 400 milhões de dólares a algo em torno de 800 milhões de dólares em
quatro anos, culminando com a super-valorização das ações da companhia, que
passaram de 3 dólares a mais de 12 dólares por unidade na época da venda. Dessa forma, o governo brasileiro assumia a Brascan por 436 milhões de dólares e assumia uma dívida de 778,6 milhões de dólares com os bancos internacionais.

Consta que a Brascan só vendeu 83% das ações pertencentes aos proprietários originais. O restante foi rateado entre gorjetas e subornos dados como prêmios a diretores, políticos e advogados. Segundo Darcy Ribeiro, Antonio Gallotti festejou a negociata no Antonio's, gabando-se de seu ganho de 39 milhões de dólares na transação, que corresponderia à taxa de corretagem cobrada no negócio.

Mais um século se soma à história do Brasil e a experiência parece, realmente, não contar para o amadurecimento do País. Os erros sequer induzem à reflexão e continuam a se repetir periodicamente. Talvez um pouco de
aleatoriedade fosse salular para minimizar essa vocação secular dos governantes para a subserviência e para a repetição de fórmulas antigas como se novas fossem.

* Marcelo Sampaio de Alencar é professor titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal da Paraíba.

Coluna atualizada às terças