13-06-2000
Reflexões sobre a privatização da Embratel


Como é de conhecimento público, na privatização da telefonia fixa o Governo Federal estipulou três grandes regiões de atuação, aglutinando as Empresas Pólos existentes, além de uma licença para todo o território nacional, a cargo da Embratel. A Embratel, como é do conhecimento geral, sempre foi uma das empresas mais rentáveis do Governo, com um nível de endividamento baixo em relação às outras estatais ou empresas privadas.

O modelo do Governo, para a transmissão em longa distância, previa a venda da Embratel e criação de uma empresa espelho, com mesmas atribuições, cuja licença para operação seria comercializada posteriormente. Em 1998, a Embratel foi vendida à empresa americama MCI pelo montante de R$ 2,65 bilhões.

Algum tempo depois, a licença para a empresa espelho da Embratel foi arrematada pelo consórcio Bonari Holding Ltda. (Sprint, France Telecom, National Grid), pelo montante de R$ 55 milhões. Após um concurso televisivo, envolvendo três conhecidas atrizes, o consórcio Bonari escolheu o nome Intelig para a empresa.

No primeiro semestre de 1999, a MCI, empresa americana que adquiriu a Embratel, foi comprada pela também americana Worldcom, pela soma de US$ 53 bilhões, passando a denominar-se MCI-WorldComm. O valor acima é 40 vezes aquela pago pela MCI no leilão da Embratel. O que leva a crer que a Embratel foi vendida por um preço irrisório, ou a aquisição da Embratel agregou muito valor à MCI, porque esta empresa tinha a dimensão da própria Embratel.

Em outubro de 1999, a Worldcom, por intermédio da MCI, adquiriu o controle acionário da Sprint, uma de suas concorrentes americanas no segmento de longa distância, sócia (com 25% de participação) da Intelig, em um negócio avaliado em torno de US$ 129 bilhões. Isso tem causado um grave problema para a Anatel, sem contar o que tem provocado na Comissão Federal de Comunicações (FCC) nos Estados Unidos, visto que elimina a concorrência nas comunicações a longa distância, criando um monopólio privado no País.

Analisando-se o desempenho das 15 melhores empresas telefônicas do País, em milhões de dólares, pode-se observar que os valores patrimoniais da maior parte das empresas de telecomunicações, apurados em dezembro de 1998, ano da privatização, estavam bem acima dos valores pelos quais as mesmas empresas foram vendidas pelo Governo. A Embratel, cujo patrimônio em dezembro de 1998 era de US$ 4,78 bilhões, foi vendida no mesmo ano por apenas US$ 1,3 bilhão para a MCI, como mencionado anteriormente.

Não deixa de ser curioso o negócio realizado pelo Governo: em uma época na qual as empresas pontocom, com patrimônio absolutamente nulo, são adquiridas por bilhões de dólares - o Governo vendeu empresas de telecomunicações completas, com patrimônios bilionários, por pequenas frações dos valores patrimoniais. Um ótimo negócio para quem comprou e, possivelmente, para quem intermediou a compra. Uma dor de cabeça para o contribuinte que, ao longo de muitos anos, arcou com o custo de criação da Embratel por meio do Fundo Nacional de Telecomunicações (FNT) - que onerava em 30% todas as contas telefônicas.

*Marcelo Sampaio de Alencar é professor titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal da Paraíba.

 

Coluna atualizada às segundas