15-08-2000
Dar voltas para o futuro

Certamente existe uma lição que deve ser aprendida na área de comunicações: nenhuma tecnologia é completamente obsoleta. Como a moda, e as calças boca-de-sino, as tecnologias vão e voltam. Em 1988, apenas 2% do tráfego transoceânico de mensagens e dados era transportado por cabos submarinos. Na época, os satélites dominavam esse mercado e pouca gente apostava na volta dos ultrapassados cabos. Hoje os cabos representam 80% do total das comunicações entre continentes.

Há duas razões básicas para isso: banda passante, ou capacidade de canal, e atraso de percurso. Os cabos ópticos mais modernos têm 3.000 vezes a capacidade dos cabos coaxiais que eram usados há apenas dez ou vinte anos, enquanto que os satélites não tiveram o mesmo desenvolvimento. Além disso, os satélites apresentam um atraso de percurso, por conta do tempo que o sinal leva para subir e descer, de aproximadamente 300 milisegundos. A inserção de equipamentos para compensar o eco produzido acaba suprimindo parte do sinal de voz e perturbando a conversação.

Cabos ópticos atuais, que utilizam multiplexação por divisão em comprimento de onda (WDM), uma versão da antiga técnica de multipexação por divisão em freqüência, têm capacidades acima de 400 gigabits por segundo. Algo como enviar o conteúdo de 100 discos rígidos em apenas um segundo. Mas, até o ano que vem, a capacidade deve aumentar em pelo menos 50%. Não é sem surpresa que os cabos submarinos já totalizam 580.000 km, umas 13 voltas em torno da Terra.

No Brasil, a Embratel, para citar apenas uma empresa, já dispõe de 31.000 km de fibra óptica. Deste total, mais de 7.000 km seguem a costa brasileira. Um outro tanto passa pelo interior, parte enterrada, parte guiada por linhas de alta tensão (OPGW). As outras operadoras fixas, incluindo Telemar, Vésper, Intelig e Telefônica também estão instalando seus próprios cabos ópticos, boa parte enterrada ao lado das rodovias.

No agora longínquo ano de 1989, a Embratel ainda apostava no satélite. Afinal, a década de 80 estava fechando com os satélites Brasilsat lançados ao espaço, em órbita geoestacionária, a 40.000 km de altitude. O País não podia correr o risco de perder essas posições orbitais para outro país da América do Sul. A Amazônia precisava ser melhor atendida em termos de televisão e telefonia e os antigos sistemas de tropodifusão já estavam com a capacidade esgotada.

Nesse mesmo ano, ministrei uma palestra sobre Comunicações Ópticas para boa parte dos engenheiros da empresa, incluindo o superintendente, Tarciso Saulo de Avelar, e o chefe da Divisão de Engenharia, Gustavo Dias de Araújo. No evento, sugeri que a Embratel fizesse um acordo com a Chesf visando à utilização das linhas de alta tensão dessa última para o lançamento de fibras ópticas.

Algum tempo depois, a Embratel efetivamente assinou o contrato com a Chesf, que permitiu o lançamento de 36 fibras em um cabo terra especial (OPGW). Como direito de passagem, a Chesf ficou com quatro fibras ópticas para montar sua rede básica. Outros acordos foram feitos e a rede de cabos se expandiu. Em futuro próximo, essa rede terá um comprimento suficiente para também dar voltas em torno da Terra.

*Marcelo Sampaio de Alencar é professor titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal da Paraíba.

 

Coluna atualizada às segundas

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