18-07-2000
O Império das Comunicações

As comunicações no Brasil e nos Estados Unidos tiveram um mecenas que, apesar de não ter tido acesso à educação formal, tornou-se um dos maiores entusiastas da área no século passado. D. Pedro II foi educado em casa por José Bonifácio de Andrada e Silva, um dos primeiros doutores do País. José Bonifácio formou-se em Direito Civil e Filosofia na Universidade de Coimbra, em Portugal, e obteve o doutorado em mineralogia na França. De José Bonifácio, D. Pedro absorveu a curiosidade científica, os conhecimentos da época e um pouco do espírito revolucionário.

As novidades tecnológicas sempre atraíram a atenção do imperador. A organização dos serviços postais no Brasil data de 1829. Em 1843, pouco mais de dois anos após D. Pedro II ter assumido o poder no Brasil, foi lançado o primeiro selo postal brasileiro, o conhecido Olho de Boi. O Brasil era o terceiro país do mundo a utilizar selo.

Os primeiros cabos submarinos foram inaugurados por D. Pedro II em 1874, conectando Rio-Salvador-Recife-Belém. A linha Recife-João Pessoa-Natal foi estabelecida em 1875. A primeira ligação internacional por cabo foi feita no mesmo ano, com Portugal, tendo sido concluída por intermédio de contrato com a empresa British Eastern Telegraph Company.

Alexander Graham Bell chegou a Boston em 1868 como professor para surdos e mudos, proveniente de Edinburgh e Montreal, tornando-se cidadão naturalizado dos Estados Unidos. No ano da Exposição Centenária da Philadelphia, 1876, Bell decidiu fazer uma exibição de suas invenções a Sir William Thomson (Lord Kelvin). O aparelho foi desenvolvido entre o outono de 1875 e o verão de 1877. A data oficial para a invenção do telefone é 1876.

Menos de um ano depois, em 1877, D. Pedro II inaugura o telefone no Brasil. Ele havia conhecido o telefone na Exposição da Philadelfia. Conta-se que o Imperador ao experimentar o telefone, surpreso, teria dito: "Santo Deus! Isto fala...''. Entusiasmado com o invento, ofereceu a Bell uma quantia em dinheiro para desenvolvê-lo, com a condição que o Brasil fosse o primeiro País a utilizá-lo. O inventor cumpriu a promessa e foi feita a instalação de uma linha telefônica entre o Palácio de São Cristóvão e a fazenda de Santa Cruz, da família imperial.

Para se ter uma idéia da evolução dos fatos naquela época, a primeira central telefônica de Paris foi ativada em 1879. No mesmo ano, D. Pedro II dava a permissão para instalar a do Rio de Janeiro. A Companhia Telephonica do Brasil foi criada em 15 de novembro de 1879, com capital inicial de 1.500.000$000 réis, divididos em 7500 ações distribuídas pela Western Telegraph Company, primeira concessionária de telefonia no Brasil.

A central do Rio de Janeiro está entre as primeiras do mundo, inaugurada em 1881, mesma época em que a Anglo-Portuguese Telephone Company instalava a de Lisboa. Em abril de 1885, o Brasil dispunha de 7 centrais em funcionamento, com 3.335 assinantes. Comparando-se com o que se passava no mundo, naquela época, os Estados Unidos contavam no mesmo ano com 137.570 assinantes, a Alemanha com 14.732, a Italia com 4.346, a França com 7.175 e a Suécia com 5.705.

Excluindo-se os Estados Unidos, o Brasil não fazia feio na telefonia do século passado - levando-se em conta que a renda per capita do País era muito pequena, em função do enorme contingente de escravos ainda existente. O Brasil iria iniciar a República como membro da União Postal Internacional e fazendo parte de todos os acordos internacionais que regulavam a telegrafia, os cabos submarinos e a sinalização marítima.

*Marcelo Sampaio de Alencar é professor titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal da Paraíba.

 

Coluna atualizada às segundas