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19-12-2000
Radiação faz mal à saúde?

Essa parece ser uma questão perene nas discussões atuais. Há milhões de anos, os seres vivos sofrem o bombardeio de radiação solar (cujo espectro apresenta um máximo em torno da faixa visível, mas que contém uma ampla
variedade de radiações), além dos raios cósmicos, raios X, beta e gama.

A radiação pode ser dividida em ionizante e não ionizante. As telecomunicações, incluindo a telefonia celular, operam em freqüências pouco
energéticas, com energia menor que 10 eV. A radiação ionizante, com energia acima desse valor e operando a partir do ultra-violeta, é responsável por alterações genéticas, por exemplo.

Provavelmente, a radiação foi coadjuvante no processo de transformação, ou mutação, que deu origem aos seres humanos. É possível que ainda o seja, porque nada indica que o processo evolutivo foi concluído com a raça humana.

O ritmo circadiano, seguido pela maioria dos seres vivos, se deve à radiação solar. Os sensores de radiação, que os seres humanos têm, permitem ver os objetos (faixa do visível), sentir o calor emitido (faixa do infra-vermelho) e até obter um bronzeado (faixa do ultra-violeta). Entretanto, os humanos não dispõem de sensores para a radiofreqüência, o que os torna mais vulneráveis à radiação nessa faixa.

O ponto a ressaltar, pelo menos para a população (que deve ser informada com imparcialidade), é que a radiação, por si, nao é benéfica nem maléfica. Ela apenas existe, na natureza ou gerada artificialmente, e seu uso
acaba determinando, ou não, o risco.

A radiação é usada para o tratamento de lesões musculares. A radiação é utilizada para a prevenção de tuberculose e outras doenças pulmonares. A radiação é usada na observação de órgãos internos do corpo humano. Por outro
lado, a radiação também já foi usada para destruir completamente duas cidades japonesas.

Diversos estudos já foram realizados, inclusive na UFPB, sobre o uso de hipertermia (aquecimento por radiação) para regressão de tumores. Sabe-se que os níveis de radiação usualmente aplicados nesses casos atingem 430 W, o que
eleva a temperatura do tecido entre 6 e 7 C.

Como esse tipo de tratamento é demorado, o paciente fica exposto a uma dosagem mais que excessiva (pelos padrões do ICNIRP ou ANSI/IEEE) de radiação não-ionizante. Por outro lado, a partir dos níveis de radiação obtidos com os celulares, a elevação da temperatura é de apenas 0,2 a 0,4 C. Esse aumento é equivalente ao que se obtém com um pouco de exercício físico.

Poucos governos se prestariam a proibir a fabricação de equipamentos de hipertermia, para tratamento de tumores, mesmo de posse dessa informação. O importante é fornecer ao usuário as informações precisas para que ele decida
o que adquirir, pressionar os fabricantes para que eles produzam equipamentos mais eficientes e impedir que estelionatários usem a informação que a comunidade científica produz para ganhar dinheiro às custas da ignorância da população.

* Marcelo Sampaio de Alencar é professor titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal da Paraíba.

 

Coluna atualizada às terças