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20-06-2000
A
Globo.com

Na história recente das comunicações, poucas empresas permearam
tanto a vida de uma geração quanto a Rede Globo. Começando por sua
controvertida criação em 1965, a partir do famoso acordo com o grupo
Time-Life, que consumiu anos de discussões no Congresso, lideradas
por Assis Chateaubriand e João Calmon, passando pelo apoio aos sucessivos
governos militares, polarizando a antipatia da esquerda brasileira,
até se consolidar como uma das poucas opções à síndrome popularesca
e mística que acomete a televisão aberta no País.
Apesar
do aparente afastamento atual, a Globo ganhou impulso com a chegada
de Antônio Carlos Magalhães ao Ministério das Comunicações, no governo
José Sarney. Em 1986, a Globo desejava um braço eletrônico e a NEC
estava com uma encomenda de 2.000 centrais telefônicas por parte
da Telebrás. Aconteceu o esperado: o miinistro pressionou Mario
Garnero, então presidente da NEC, até que esse, sufocado e processado,
passou o controle da empresa para Roberto Marinho. O episódio todo
ficou conhecido como "O Escândalo NEC" e duas CPIs foram criadas
para investigá-lo. No entanto, o assunto acabou esquecido.
É
interessante lembrar que Antônio Carlos Magalhães já era associado
de Roberto Marinho em outra área, com uma concessão de canal de
TV que transmite programação da Rede Globo na Bahia. A TV Aratu
tinha a concessão da Globo, até que Antônio Carlos Magalhães
conseguiu transferi-la para a empresa de sua família, a TV Bahia.
Pouco
depois, Roberto Marinho cria a Victori Internacional Engenharia
de Telecomunicações (Vicom). O objetivo da empresa era penetrar
no monopólio da Embratel. O Bradesco, em conjunto com a Vicom, propôs
ao Ministério das Comunicações cessão de alguns transponders (equipamentos
de retransmissão que equipam os satélites) do Brasilsat à Vicom,
para que essa empresa passasse a explorar o serviço de comunicações
de dados. A diretoria da Embratel ficou contra a proposta - e foi
demitida por Antônio Carlos Magalhães.
A
primeira investida internacional da Globo aconteceu em 1985, com
a assinatura por Roberto Marinho, em Paris, de um contrato que o
tornava sócio majoritário da TV Internacional do Principado de Mônaco,
que operava a Tele Montecarlo. A empresa, aparentemente, nunca deu
o lucro que a Globo esperava.
Recentemente,
em nova operação internacional, a Telecom Italia comprou 30% da
Globo.com. A companhia italiana, que tem participação na Tele Centro
Sul (19,67% do capital total), Tele Celular Sul (51,79% do capital
votante), Tele Nordeste Celular (51,79% do capital votante) e Maxitel
(43,15% do capital votante) está desembolsando US$ 810 milhões pelo
negócio. O portal da Globo está avaliado em US$ 2,7 bilhões.
O
acordo visa inicialmente o planejamento da entrada da Globo.com
como fornecedora de conteúdo jornalístico e de entretenimento nos
países de língua espanhola da América Latina e o desenvolvimento
no Brasil da técnica WAP (Wireless Aplication Protocol), que possibilita
o acesso à Internet por meio do telefone celular. A Telecom Italia
será o braço tecnológico da Globo.com e a empresa brasileira fica
responsável pelo conteúdo do portal e mercado publicitário.
O
potencial de marketing da Globo é inegável. Com menos de três meses,
a Globo.com já possui 30% do mercado publicitário para a Internet.
No primeiro mês de funcionamento, o portal obteve uma média diária
de 700 mil acessos. Resta saber se, ao contrário de outros negócios
milionários da Internet que não têm conseguido converter acessos
em lucros, a Globo começa este século com uma mídia nova tão lucrativa
quanto foi a velha televisão no último.
*Marcelo
Sampaio de Alencar é professor titular do Departamento de
Engenharia Elétrica da Universidade Federal da Paraíba.
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