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25-09-2001
Guerras e Comunicações


O mundo reconheceu a importância das comunicações para o sucesso das operações de guerra durante a Primeira Grande Guerra, no século passado. No teatro de operações europeu, mais precisamente na França, começaram a ser usados os primeiros equipamentos de comunicações militares em larga escala.

Entre 1914 e 1917, foi concebido, pelo Major Howard Armstrong, do corpo de comunicações do exército americano, o receptor de rádio heterodino, que substituiu, com vantagem, o receptor homodino, cuja sintonia era um
trabalho para especialistas. Claro, naquela época o estado da arte era a modulação em amplitude.

O novo receptor começou a equipar os carros da polícia de Detroit, Chicago e Nova Iorque, no início da década de 20, para ajudar no combate ao tráfico de bebidas, então proibidas por lei nos Estados Unidos. A proibição durou nove anos e fomentou a criação de quadrilhas especializadas
(os gangsters) em fabricação e contrabando de bebidas do Canadá, principalmente. Conta-se que essas atividades ilegais produziram fortunas e os famosos Barões Ladrões, novos-ricos que deram origem a familias respeitadas na atualidade.

A Primeira Grande Guerra também alertou os países para a importância das comunicações sem fio, já desenvolvidas desde o final do século 19, no Brasil, pelo padre Landell de Moura, visto que os cabos submarinos, comuns para a transmissão telegráfica naquela época, eram facilmente sabotados.

A Segunda Grande Guerra já contou com equipamentos de comunicações bem mais desenvolvidos. O Departamento de Defesa (DoD) americano já investia em comunicações havia algum tempo. Na realidade, quase todos os investimentos americanos em comunicações eram feitos pelo DoD, incluindo o financiamento a
cientistas do porte de Wiener e Shannon.

A criptografia, que cuida da cifragem de mensagens para esconder seus conteúdos de um possível inimigo, não nasceu na Segunda Grande Guerra, mas teve um desenvolvimento surpreendente, com o cilindro codificado, elaborado pela atriz austríaca Hedy Lamarr. A atriz acabou presa pelo governo americano,
que desconfiava do fato de uma atriz de cinema estar envolvida no desenvolvimento de um sistema de criptografia.

A guerra também propiciou a produção, em larga escala, de equipamentos de comunicações, o que baixou os preços e tornou-os acessíveis à população. Diversos sistemas foram desenvolvidos para atender os objetivos da guerra, incluindo computadores para cálculos balísticos, que deram origem aos
computadores atuais, sistemas de controle de mísseis, que originaram os foguetes e os programas espaciais, sistemas de detecção de mensagens contaminadas por ruído, que levaram ao desenvolvimento de complexas teorias
de detecção, equalização, codificação e modulação de sinais.

Os esforços de guerra geralmente implicam em grandes investimentos em comunicações, além de outras áreas correlatas, o que se traduz em invenções, descobertas e desenvolvimento de novas teorias. Por outro lado, as comunicações
podem servir para prevenir a ocorrência de conflitos, visto que mal entendidos entre países podem ser evitados com a comunicação quase instantânea de hoje.

A Internet também, com se viu na Guerra do Golfo, serve como uma fonte mais segura de informações, por veicular notícias relativamente livres da propaganda oficial que circunda as guerras. Talvez, como fórum aberto de
discussão mundial, possa servir para minimizar os ressentimentos de ordem cultural, econômica ou religiosa que têm estimulado as guerras nos últimos séculos.

* Marcelo Sampaio de Alencar é professor titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal da Paraíba.

Coluna atualizada às terças