PreviewFirewallPreviewFirewallPreviewFirewall

26-06-2001
O mundo sem memória

Poucos perceberam o perigo, mas existe uma ameaça iminente de que
a cultura humana, como se conhece hoje em dia, seja extinta em poucos anos. Muito do que se produziu, ao longo de séculos, tem sido registrado pela
forma oral de transmissão de informações ou pela escrita. A carta de Pero Vaz de Caminha, relatando o descobrimento do Brasil, está conservada até hoje, mesmo após 500 anos do evento.

Entretanto, à medida em que os computadores e as redes são mais usados como meio de armazenamento e transmissão de informações, a dependência em relação a memórias de alta capacidade e baixa persistência torna-se maior.
Um disco rígido dura poucos anos, um disco compacto não mais que uma ou duas
dezenas de anos, as fitas magnéticas desvanecem rapidamente, assim como os disquetes.

Boa parte do que se produz atualmente está armazenado em meios perecíveis, incluindo projetos, plantas, patentes, músicas, textos e desenhos. Como se sabe, a maior parte do que se convencionou chamar cultura humana foi
prduzida no século passado e as informações associadas estão armazenadas nesses
meios.

Claro, muitos livros ainda são escritos e publicados. Mas isso não representa muito, comparado com, por exemplo, a quantidade de informação trocada por milhões de internautas em todo o mundo. Informação que, ao cabo
de poucos instantes, desaparece sem deixar vestígios - transformando-se em lixo digital. Mesmo as informações que, por precaução, sejam guardadas, não resistirão mais que alguns anos até desaparecerem por completo.

Quando se pensa na cultura que civilizações antigas legaram às gerações atuais, com informações gravadas por milhares de anos em pedra, madeira, papiros, metal e papel, a única coisa que vem à mente é o receio de viver, daqui para a frente, em um inexorável hoje - sem memória do passado.

* Marcelo Sampaio de Alencar é professor titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal da Paraíba.

 

Coluna atualizada às terças