27-06-2000
Espelho, espelho meu

A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) está colocando à disposição dos interessados os editais de licitação das "espelhinhos", versão minimalista das "empresas espelho", que teriam a função de aumentar a competição na telefonia fixa, ou Serviço Telefônico Fixo Comutado (STFC) como é conhecido na área técnica.

Na primeira etapa, a Anatel está licitando 450 municípios, pequena parcela dos 5.200 que não têm acesso aos serviços das "empresas espelho". Aqueles que adquirirem as "espelhinhos" levarão, como prêmio, uma licença para prestar serviços de telecomunicações de longa distância, nacional e internacional, a partir de janeiro de 2002.

Os primeiros editais abrangem cidades com mais de 50 mil habitantes e correspondem a três etapas de 150 municípios cada, para as áreas de concessão da Telemar, Telefônica e Brasil Telecom (Tele Centro Sul). Após terminada essa primeira etapa, a Anatel lancará outros editais, para 900 municípios com população entre 10 e 50 mil habitantes. A partir de janeiro de 2002, o serviço poderá ser explorado mediante a solicitação de uma licença à Anatel.

A publicação desse editais provoca um certo sentimento de déjà vu, uma sensação de que o Brasil já passou por tudo isso e, mais uma vez, trilha caminhos que há poucos anos eram considerados ultrapassados. Na década de 60, havia mais de 800 empresas telefônicas espalhadas pelo País.

A maior parte dos sistemas de telefonia no Brasil, da época, foi instalada e era operada por companhias estrangeiras. As pequenas cidades sofriam com a falta de comunicação, mas não tinham o monopólio desse sofrimwento. Após a Segunda Guerra Mundial, os Governos brasileiros não permitiram que as tarifas públicas, incluindo as telefônicas, acompanhassem o aumento dos preços para não haver pressão sobre as taxas de inflação.

As companhias telefonicas reagiram cortando os investimentos e até provocando um certo desinvestimento no setor. A situação na década de 60 era crítica ao ponto de dois psiquiatras, que seguiam linhas de pesquisa diferentes, concluirem que o assinante carioca sofria de "neurose de ansiedade e frustração aguda", devido ao péssimo serviço telefônico prestado no Rio. Nas melhores circunstâncias, o assinante tinha que esperar de dois a cinco minutos por um tom de discar. Mas a espera podia se prolongar até 45 minutos e o resultado quase sempre era um número errado ou silêncio total!

A estatização, com a criação das Empresas Pólos e da Embratel, foi considerada, para a época, a salvação do sistema telefônico - pois acabava com as centenas de pequenas e ineficientes empresas privadas, quase todas absorvidas pelas estatais, e garantia um aporte de recursos para revitalizar o setor. Agora o governo volta a insistir no antigo modelo, com as concessões para as "espelhinhos". No Brasil, os governos raramente buscam na história os ensinamentos necessários para evitar os prejuízos, pelos quais os contribuintes sempre acabam pagando.

*Marcelo Sampaio de Alencar é professor titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal da Paraíba.

 

Coluna atualizada às segundas