29-08-2000
Transmitindo o lucro

Em 1999, a receita operacional (vendas) das dez maiores empresas
de telecomunicações que atuam no Brasil totalizou mais de US$ 17 bilhões - um valor que representa aproximadamente uma vez e meia o que o governo arrecadou com a conclusão da venda de todas as empresas estatais da área, no
ano anterior.

O patrimônio da Telefônica de São Paulo está próximo dos US$ 8,8 bilhões e o da Embratel já chega a US$ 3,8 bilhões. Que estes valores estão bem acima do que o governo recebeu pelas empresas já é notório. Que houve investimento por parte dos compradores também é sabido, o que se traduz na maior facilidade
de se obter um acesso telefônico.

O que o público em geral talvez não imaginasse era que os investimentos diretos, concentrados em fusões e aquisições, principalmente no setor de comunicações, não gerassem exportações. Na realidade, essas transações têm o potencial de elevar as remessas de lucros nos próximos anos.

As estimativas de remessas de lucros para o exterior indicam que 7% desses lucros devem deixar o País este ano. Para o ano 2001, estima-se que 10% dos lucros serão remetidos. Em 2005, o Brasil estará exportando 15% dos
lucros obtidos. Será, provavelmente, o item mais expressivo na pauta de exportações.

Dentre as formas usuais do Estado se financiar estão: emitir moeda (usualmente chamada de expandir os meios de pagamento), cobrar impostos (sobre a renda ou sobre serviços e mercadorias adquiridas) ou tarifas (cobradas no
ato de pagamento, em função do que for consumido) e tomar emprestado ao setor
financeiro.

A tarifa é, normalmente, a forma mais prática e justa de financiamento do governo, porque é cobrada por um serviço prestado. O uso do telefone implica na cobrança da tarifa correspondente, assim como o uso de eletricidade. A emissão de moeda, geralmente, provoca inflação e tomar emprestado aos
bancos sempre foi temerário em um País com taxas bancárias tão elevadas.

Ao vender as estatais de telecomunicações, o governo abriu mão de cobrar as tarifas. Como os custos com a manutenção do Estado não diminuíram, e para não estimular a volta da inflação, restou ao governo aumentar os
impostos.

*Marcelo Sampaio de Alencar é professor titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal da Paraíba.

 

Coluna atualizada às segundas

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