30-05-2000
Estudo de caso: a Telemar


A Tele Norte Leste, que contempla todas as empresas telefônicas desde o Rio de Janeiro até o Amazonas, atualmente denominada Telemar, foi adquirida por um consórcio formado pela Andrade Gutierrez, La Fonte, Inepar, Macal, Aliança Brasil, Brasil Veículos, Fiago e Grupo Listas. Valor da transação: R$ 3.434.000.108,00, com ágio de apenas 1%. Ao final de 1999, pouco mais de um ano após o leilão, seu preço de mercado, avaliado pela Bovespa, era de R$ 16,2 bilhões. Alguns analistas de mercado estimam o valor atual da Telemar em R$ 10 bilhões. Em todo caso, ou o governo perdeu muito dinheiro na venda da empresa - ou os sócios realizaram a mágica de multiplicação do valor da empresa no curto período de dois anos.

É interessante verificar que, dentre os participantes do consórcio, não consta sequer uma empresa com experiência em telecomunicações, ou uma operadora, ou fabricante, do setor de telefonia fixa. A Inepar era a única com alguma experiência na construção de torres para estações radio-base, mas vendeu sua participação para o banco Opportunity.

A transação também foi pitoresca. Após diversas denúncias de que o Governo Federal estaria favorecendo o grupo Opportunity, o BNDES acabou financiando 60% da aquisição da Tele Norte Leste e comprando outros 25%. Como resultado, o Governo acabou comprando a empresa que estava vendendo! No entanto, o controle ficou com a família Jereissati - apesar de ser minoritária no negócio.

No ano passado, para evitar o pagamento de R$ 164 milhões em impostos ao Governo, os controladores da Telemar criaram outra empresa, a Nova Telemar, que seria a holding das 16 empresas estaduais. Um expediente muito usado por empresários à beira da falência, mas pouco interessante para o restante da população, porque, como a conta de arrecadação do fisco tem que fechar, os contribuíntes acabam pagando a mais pelo que não foi arrecadado pela Telemar.

Este ano, o consórcio terá que desembolsar a última parcela do pagamento acertado no leilão, algo em torno de R$ 1,5 bilhão, equivalente a 30% da oferta feita, em valores ajustados pelo IGP-M. Nos últimos dois anos, a Telemar vem demitindo funcionários e alienando patrimônio para fazer frente ao pagamento das primeiras parcelas - na contramão do que tem ocorrido no setor de telecomunicações. Evidentemente, a qualidade do serviço prestado decaiu e o número de reclamações, convenientemente subtraídas dos relatórios enviados à Anatel, cresceu em demasia.

A própria União Internacional de Telecomunicações (UIT) reconhece que os benefícios das privatizações no mundo não duram mais que cinco anos e acabam voltados para as camadas mais abastadas da sociedade. No entanto, em função da concorrência, alguns indicadores da empresa melhoraram. A Telemar conta com 11 milhões de acesso fixos, sendo a maior operadora do setor, e pretenderia investir R$ 2 milhões este ano, para chegar a 12 milhões de acessos fixos e atingir uma taxa de digitalização de 90%.

Contraditoriamente, sem recursos para pagar a última parcela, os controladores estariam se desfazendo de 15% das ações ainda este semestre. Isso foi, inicialmente, negado pela Telemar, mas já se sabe que o banco de investimento americano Lazard Frères teria o mandato para venda de parte do capital da empresa. Entre as empresas contactadas, estariam a GTE, a France Telecom, a Portugal Telecom e a AT&T.

A empresa, em que pese a qualidade declinante dos serviços, estaria se pagando. Espera-se, para breve, a emissão de R$ 620 milhões em debêntures para completar o pagamento da terceira parcela devida em agosto. Realmente um caso interessante para estudo pelos economistas: como adquirir e manter uma empresa sem aporte de capital. Apenas o Governo brasileiro propicia facilidades desse tipo. Pena que, como diria Stanislau Ponte Preta, não possamos nos locupletar todos.

*Marcelo Sampaio de Alencar é professor titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal da Paraíba.

 

Coluna atualizada às segundas