05-06-2000
Bonitinha, mas ordinária?


Enquanto tem gente doente por causa da Rede, que não consegue passar um dia sequer sem checar e-mail, outros ainda resistem aos apelos da mídia e dos amigos, permanecendo desplugados.

Entre os motivos alegados pela turma offline, está, em primeiro lugar, um certo embaraço em relação a tudo que é ligado à tecnologia, do videocassete (“Ah, por que aquele controle remoto precisa de tantas teclas!?”) ao computador.

Porém, outra queixa, também muito comum, dos desconectados que já experimentaram uma vez ou outra navegar pelas páginas da Web ou passar algum tempo conversando no IRC é que a Rede é, em sua maioria, pop demais, trash demais.

Não que eles tapem os olhos à facilidade de ter uma Enciclopédia Britannica (www.britannica.com) integralmente disponível ao público pela WWW (e de graça!), ou neguem as vantagens de possuir um correio eletrônico, de se comunicar em tempo real com pessoas de outros países a baixo custo.

O problema é que a Britannica Online, os sites de informação, os portais respondem realmente por muito pouco do mar de conteúdo da Web. Embora os sites oriundos de instituições tradicionais do mundo real concentrem as atenções da maioria dos internautas, existem, espalhados em servidores da Austrália a Malásia, homepages e serviços avulsos de qualidade compatível ou superior que podem nunca serem visitados pelo seu público-alvo.

Um colega historiador, pessoa culta e bem informada, até hoje não passou do “Olá, tudo bem?” com a Internet. E, por mais estranho que possa parecer, não demonstra sentir falta de ter acesso à Rede. Ele continua estudando e absorvendo informações através de dois meios “ultrapassados” e eficientes: o livro e o jornal. Não se trata de nenhum tecnófobo, porém mais um que ainda não se sentiu irremediavelmente compelido (leia-se: obrigado) a entrar na Net.

Pesquisas realizadas com freqüência nos Estados Unidos (e ainda faltam estudos mais aprofundados deste tipo no Brasil) dão conta de que a maioria dos internautas utiliza a Web para entretenimento e lazer. Nada contra. O e-commerce é febre entre os americanos. Aqui, o comércio online B2C (business-to-consumer), o varejão mesmo, é tímido. Costuma-se dizer que a tara do internauta americano é comprar e a do brasileiro é ver sacanagem: em todos os mecanismos de busca do País, a palavra “sexo” aparece entre as três mais solicitadas.

Céticos e retrógrados aproveitam para xingar a Net, taxando-a de superficial e depósito de lixo cibernético. Todos os especialistas e também os empresários digitais, apesar de rebaterem essas acusações, estão mesmo preocupados com o crescimento exagerado, caótico e incontrolável da Web. A idéia de quem quer ganhar dinheiro na Rede é limitar a navegação aos sites de referência, onde os banners são exibidos e os produtos oferecidos.

Muito diferente daquele já longínquo tempo em que começou, a Internet é encarada hoje como um grande negócio, o que não impediu sua consolidação como “o meio” em termos de mídia e educação. Todos os dias, milhões de pessoas voltam seu talento para tentar gerar lucros a partir da Rede.

Há de se torcer para que a Internet consiga achar seu modelo próprio, misturando as características das mídias anteriores, (e nisso a banda larga vai desempenhar um papel importante), seja enfim lucrativa, mas não siga o exemplo da televisão e se torne definitivamente trash demais, pop demais...

* Hugo Pordeus é produtor executivo do site BuscaGRÁTIS