18-07-2000
Toda unanimidade é burra (e passageira)

Até o final de 2001, o setor de tecnologia de informação, ao que tudo indica, vai viver um de seus momentos mais interessantes desde o advento da Web. Do desktop aos telefones celulares, muitas mudanças estão previstas. No meio da profusão de novidades, a confirmação do que parecia apenas um blefe quando dito por Bill Gates: até mesmo o "impossível" pode acontecer e, nesse mercado, ninguém possui imunidade.

Uma das coisas que Gates mais tem repetido nos últimos tempos é que a estrada da informação está sendo pavimentada a passos tão largos e tantos são seus construtores e suas vias que é muito fácil tomar o caminho errado. Ou pior: é uma pura questão de tempo. A Microsoft é esse fenômeno porque dois garotos, o próprio Bill Gates e Paul Allen, perceberam, antes dos outros, que o tal computador pessoal ia pegar. E resolveram criar programas para PC. O resto é história.

Agora as encruzilhadas são ainda mais freqüentes e o turbilhão de novas tecnologias é desafiador para qualquer empreendedor, do CEO de uma gigante do Vale do Silício a um jovem recém-formado em Ciência da Computação. Guardadas as devidas proporções, ambos têm chances parecidas de acertar.

Não é falsa modéstia nem muito menos truque. Cada vez que Bill Gates declara que até mesmo a Microsoft pode vir a estar superada em alguns anos, depois de uma curva mal feita na estrada da informação, ele está sendo sincero. Foi assim quando a companhia cochilou feio e largou no finzinho da fila na corrida da World Wide Web. No início, Gates achava que essa tal WWW não ia dar em muita coisa, ficando restrita aos pesquisadores e acadêmicos.

O mesmo homem que, nos anos 80, teve a genialidade de farejar a revolução que o microcomputador faria, dormiu no ponto e franziu a testa para o maior boom da informática rumo às pessoas comuns. Hoje siglas como WAP e MP3 dividem especialistas e usuários, todos relegados (às vezes injustamente) a palpiteiros, apostadores. Que história é essa de navegar em uma telinha de celular? O MP3 vai sair da clandestinidade e derrubar os grandões da indústria fonográfica? E os palmtops vão mesmo superar os PCs em número e tarefa de acessar a Internet? Em que você aposta? Talvez seu palpite esteja tão errado quanto o de um executivo de uma multinacional da tecnologia.

O debate mais acirrado e apaixonado no campo dos boatos, palpites e desejos é sobre os sistemas operacionais. O Windows é usado em 90% dos PCs. Uma unanimidade. Do Linux, fala-se muito. É a grande promessa. É de graça e robusto. Tem um probleminha: na origem, não foi feito para usuário final. E nisso trabalham centenas de empresas nesse exato momento.

A luta entre pingüins (símbolo do Linux) e janelas, que já lembrou Davi e Golias, mas hoje, sem dúvida, preocupa o alto escalão da Microsoft, faz perceber que toda unanimidade é mais do que burra. Pode ser perigosa e, provavalmente, será passageira.

* Hugo Pordeus é produtor executivo do site BuscaGRÁTIS

Coluna atualizada às sextas