05-05-2000
O talento faz o capital dançar

 

São Paulo - Lembro-me de quando adolescente sonhava em viajar pela Europa. O ano era 1986, e o Brasil vivia os tempos da reserva de mercado, da aversão ao capital estrangeiro entre outros primores produzidos pela nossa 'inteligência' militar e os nossos sindicatos. Afinal em 91 consegui fazer minha primeira caríssima viagem a Londres.

Semana passada, pagando um terço do preço de 91, estava de novo na cidade. Comprei no Heathrow (aeroporto de Londres) um livro chamado Funky Business (link para www.funkybusiness.com). Talent makes capital dance, diz o sub-título. Esta frase, na minha opinião, está entre as melhores do ano. Traduz o espírito atual quase predatório das empresas em busca de talentos.

Abro o Estado de São Paulo e leio pela milésima vez a queixa de que está faltando gente para trabalhar. As empresas estrangeiras estão pilhando a Petrobrás, roubando os seus melhores engenheiros. A Microsoft também. A Alemanha trouxe 20.000 indianos. Em um grande portal que provê acesso gratuito, metade das pessoas com quem falei ontem estavam no seu primeiro dia de trabalho, vinham de outras ponto coms paulistas e cariocas. Não se pode mais empregar agricultores analfabetos, é preciso saber ler a bula dos fertilizantes, calcular a dose de pesticidas entre outras coisas.

Na nossa empresa, um dos nossos melhores colaboradores estava no Rio semana passada em uma entrevista da Microsoft. Nós não estamos a salvo também. Ninguém está. O que acontece em um país onde a maioria é analfabeta, dois ou três milhões valorizam uma boa educação, e o resto que tem acesso a ela não dá a mínima? O que acontece quando dentro deste ambiente isolamos as ponto coms cheias de capital e famintas por talentos?

Não preciso dizer que a palavra exata é pânico, fome de talentos, e que algumas empresas passarão maus bocados. Pense na Microsoft. Motorola. HP. SUN. Yahoo. A sua empresa está preparada para enfrentar uma concorrência como esta? E desta vez, concorrência não pelo mercado, mas pelo capital intelectual que você (ainda) possui?

Encontrar e manter pessoas criativas, inovadoras, com genialidade e iniciativa (CIGI) é questão prioritária se sua empresa quer sobreviver. E se você estiver do outro lado da mesa, como um colaborador, sua capacidade de ser CIGI (criativo, inovador, gênio e 'iniciativo') é quem dá o seu valor. Agora mais do que nunca, como ensina o Funky Business, inovar tem que ser tarefa de todos os funcionários, inovar em tempo real, usar toda a sua capacidade produtiva, que está encerrada num órgão cinzento de 1,3 Kg que temos na cabeça.

Para terminar mais uma frase deste livro que recomendo: "If you think competence costs, try incompetence".

* Jairson Vitorino, diretor da Mundi Multimídia S.A. e da MUNDIWEB

Coluna atualizada às sextas