02-06-2000
Domínio não é patente

Vou colocar logo minha opinião sobre essa onda criada por alguns espertinhos da Web que acreditam poder faturar uma grana alta com o registro antecipado de domínios dos outros. Isso é picaretagem.

A gente pode chamar de tudo que quiser. Mas uma pessoa que acha certo pegar o nome de uma outra de sucesso, registrar na Fapesp e depois tentar receber uma grana por isso, está cometendo crime. Não tem essa de dizer que a vez é de quem chegar primeiro, do mais esperto, que a Web é livre e que ajoelhou tem que rezar.

Esta semana a juíza Sílvia Maria Meireles Novaes de Andrade, da 7ª Vara da Fazenda Pública de São Paulo, cancelou o registro dos nomes de domínio Jornal Nacional e Globo Esporte, que estavam em poder da uma empresa baiana. Ela atendeu a uma ação movida pela TV Globo, que reivindicou o direito de uso das marcas na Internet. O Supremo Tribunal Federal deveria se pronunciar e criar logo jurisprudência sobre o caso e acabar com essa festa de penetras da Web para restaurar a legalidade.

E a constatação para isso é simples. Bastaria fixar como norma para registro de domínio no caso das empresas ou seu registro no INPI, ou na junta comercial da cidade onde a empresa tem sede. E é claro que o pedido deve ser feito por gente autorizada. De preferência, pelo presidente mesmo, que é para não haver dúvidas ou no caso de pessoa fisica do CPF.

Essa conversa toda de gente que andou registrando o nome dos outros é uma coisa bem brasileira. Não tem nada a ver com o registro de patentes que os americanos tanto exigem do Governo brasileiro. É picaretagem pura. É como considerar lícito um furto.

O nome de um pessoa de sucesso ou que tem sua empresa legalmente registrada é, na verdade, seu maior patrimônio. Então por que o nome Jesus Cristo está disponível alguém vai lá e registra? Ao que se sabe, o filho do Senhor não anda por aí reivindicando nenhuma ação positiva ou negativa cometida em Seu nome. E aí a Fapesp vai e aceita? Ora, isso é ridículo. Os castigos de Deus não estão disponíveis como penitência na Internet.

Só quem pode registrar o nome de uma empresa é o dono dela. Um artista que trabalhou duro é quem tem o direito de registrá-lo. Por acaso alguém pode anunciar no jornal, no rádio e na TV um serviço que só é prestado por outro apenas porque registrou antes na Internet?

A colocação desse ponto de vista sobre isso serve para o início do debate do tipo de problema que a mídia digital vai enfrentar nesses tempos de acomodação quando aparecem os chamados predadores darwinianos. Eles não sobreviverão à evolução da espécie. Mas vão causar uma porção de mortes antes de serem devorados.

O que está em discussão é o que isso pode atrapalhar o processo de consolidação da chamada mídia digital. No que ela pode tirar do ar, ainda que temporariamente, produtos e serviços que na Internet poderão de fato ter visibilidade.

Porque é preciso não esquecer que, no momento, o negócio Internet ainda é uma coisa que depende das outras mídias tradicionais. Hoje as empresas estão gastando seis reais nas outras mídias para faturar um com a Web. É um tiro de espingarda calibre 12 no pé. Mais irracional do que isso só as cotações do Nasdaq.

O negócio Internet Mídia só tem faturamento consistente hoje no mercado publicitário (produzindo anúncios extra - Web para o freguês ver a Web) e no business-to-business das grandes corporações como ferramenta de redução de custos. O resto é atividade meio, aqui entendido como faturamento para habilitação do negócio que vai do software básico ao monitor de TV passando por toda a indústria de informática.

Isso, sejamos honestos, não é mídia nova. E nem vai ser se a gente não deletar logo esse tipo de gente do que eu chamo do nicho picaretagem.com.

Até semana que vem.

*Fernando Castilho (castilho@jc.com.br) é jornalista há 24 anos e assina a coluna JC Negócios no Jornal do Commércio, de terça a domingo.

Coluna atualizada às sextas