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05-09-2001
Sob o manto do antiterrorismo

Quando os terroristas explodiram as torres do WTC e parte do prédio do Pentágono, as pessoas que vêm cuidando para que a Web seja um veículo democrático e acessível a todos - inclusive as pessoas que se utilizam dela para atacar outras - sentiram que o futuro na Internet teria que ser o de uma convivência conflituosa com as autoridades do Governo para que ao Estado não fosse dado o direito de entrar pela porta dos fundos nos programas que rodam a Web de forma a que agentes federais, à cata de possíveis terroristas, pudessem bisbilhotar a correspondência do cidadão.

Isso já começou. E começou nos Estados Unidos, que têm metade do tráfego da Internet no mundo. Ou seja, começou um movimento no Congresso norte-americano para que os legisladores permitam ao FBI uma “chave de software” de encriptação que permitiria que a agência de investigações do governo abra mensagens secretas na Internet. O discurso é o Estado poder usar todos os meios para tentar descobrir terroristas.

Não vai ficar por aí. Até porque já há um movimento igual para que isso não aconteça. Mas também não se deve achar que, em nome da segurança, se tente e não se faça isso ilegalmente. É aí que mora o perigo ou é por aí que a coisa vai ficar difícil.

Todo mundo sabe que privacidade da Web é um negócio discutível. Os programas de criptografia estão sendo melhorados e incorporando cada vez mais trilhas de segurança. Mas todo mundo sabe, também, que o conceito de Web é de uma sala aberta com todo mundo falando ao mesmo tempo em que alguém presta atenção a alguém. O problema será se, sob manto de catar terroristas, alguém entenda que possa ouvir tudo o que todos estão conversando.

A questão da privacidade da Web tem que ser perseguida não para o E-Commerce, o E-Gov, o B2B ou qualquer outro E que a Web possa agregar. Ela tem que ser perseguida como um direito do cidadão para que o Estado ou representantes do Governo não possam ler tudo.

Ninguém deve achar que o terror se justifica. Não há nada da Web que autorize alguém usá-la para atacar alguém. Mas se todos, com a força do seu e-mail pessoal não começarem desde já a defender isso, todos corremos o risco de alguém violar nossos direitos.

E para os mais novos nunca é tarde lembrar a velha fábula do judeu, do negro e do homossexual diante do squais um cidadão, por não se julgar igual a nenhum deles, não protestou quando a polícia levou um por um preso e viu que, quando vieram lhe prender, não haver mais ninguém para protestar.

Não devemos esperar que prendam o primeiro. Devemos todos começar a protestar que, sob o manto do antiterrorismo, não cometam crimes contra o projeto democrático da Web.

Até semana que vem.

*Fernando Castilho (castilho@jc.com.br) é jornalista há 24 anos e assina a coluna JC Negócios no Jornal do Commércio, de terça a domingo.

 

Coluna atualizada às sextas