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07-09-2001
Micro pop virou tema de campanha

O projeto de compra de quase 300 mil microcomputadores está cada vez mais "melado" pelo estigma de ser apenas um objeto de campanha política ou de alguém querendo se incluir na relação de possíveis candidatos.

Porque, assim como foi o caso da MP dos planos de saúde, que devido à reação tão forte dos usuários precisou ser refeita, o projeto da compra de micro das escolas publicas foi parar na Justiça, pelos problemas que já causou ao setor. Talvez porque Paulo Renato, no Ministério da Educação, e José Serra, na Saúde, acreditem que, com grandes cartadas como essas, poderiam lhes habilitar a condição de candidato a candidato nas próximas eleições.

Pode ser que funcione. Mas, no caso do projeto de tele-educação, a coisa derivou mais para um simples disputa de venda de micro do que se tornar um marco regulador de uma política de ampliação do acesso à informática nas escolas do governo e potencialização da Internet no Brasil.

Começou quando o Governo trocou a possibilidade de ser, em cinco anos, uma base de produção de componentes como propôs o então ministro Alcides Tápias e foi atropelado pela redução da alíquota de 14% para 2% do IPI de forma a tornar o micro da escola mais barato logo. Isso quer dizer que trocamos a chance de ser, em pouco anos, uma base de produção de componentes por um pacote de 300 mil máquinas importadas a IPI baixo e a promessa da Microsoft de implantar aqui um conjunto de seis ou oito centro de pesquisas de software com novas linguagens.

O problema é que o Governo, na ânsia de ter um programa de massa de computadores baratos, está gerando um enorme confusão no setor porque, ao privilegiar o Windows, vai indo contra a comunidade acadêmica que prefere o Linux, que custa um décimo do Windows e tende a virar padrão no futuro.

É certo, ou aceitável, o discurso do Governo de que o mundo hoje usa Windows e para quem está tomando conhecimento de informática e Web é melhor que seja iniciado por um sistema que pode ver na esquina e nos escritórios. Certo, mas esse discurso esconde o fato de que o aluno vai precisar de toda aquela parafernália de opções que hoje o Windows embute.

Ora, informática na escola, pelo menos nos próximos dois anos, não vai além de processador de texto, uma planilha simples e um programa de navegação na Web. Ninguém está falando de código fonte disponível em escolas de primeiro grau. Além do mais, a Internet está cheia de navegadores gratuitos. O objetivo do projeto não é só apresentar micro a aluno da rede publica; é dar a eles a oportunidade de entrar na Web.

Mas parece claro que a "Nomenclatura" do Ministério da Educação está mais interessada na visibilidade que um acordo com a Microsoft pode dar a seus gestores do que em resultados práticos. Afinal, quando os micros estiverem sendo montados e ainda forem uma novidade, já vai ser tempo de eleição e os filmes de propaganda poderão mostrar meninos deslumbrados com os novos equipamentos.

Mas não vão custar barato, não. O preço do dólar já fez o custo explodir. E, se fosse um programa decente, o Governo decidia por um custo mais baixo, com programa básico de graça e alíquota de importação zero feita pelo próprio ministério (já que não vai fabricar nada aqui mesmo) para quem quisesse montar. Mas o Governo ou o ministro candidato a candidato tem pressa e preferiu atropelar os fato. Deu azar. Entrou numa briga com importantes setores e agora corre o risco de ver o programa começar depois que ele sair do Governo.

O ruim disso tudo é que a Web perdeu um chance de maximizar o uso da informática na escola já no ano letivo de 2001. E sejam honestos: seria um forma de jogar pelo menos um milhão de pessoas no universos de audiência da Internet no Brasil. Isso aí, sim, é uma pena.

Até semana que vem.

*Fernando Castilho (castilho@jc.com.br) é jornalista há 24 anos e assina a coluna JC Negócios no Jornal do Commércio, de terça a domingo.

Coluna atualizada às sextas