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09-06-2000
CPU
não é unico caminho para a Web

Festa
no mercado de hardware, a venda de CPUs para montagem de computador
virou discurso para aumento da base de gente plugada na Web, especialmente
junto a tudo quanto é assessor técnico do Governo. Computador na
escola, no posto de saúde e no quartel.
Peraí
que nesse rio tem truta. Quem foi que disse que acesso a Web tem
que ser via computador incrementado com HD de 10 giga, multimídia
de 48x, placa de Pentium III e monitor de 17 polegadas? E ainda
mais com dinheiro do contribuinte? Do meu, não! Se é para colocar
o Governo na era digital - especialmente a escola, o hospital e
a Polícia -, é melhor começar a se pensar em rede, que é mais barato
e permite a democratização da informação que é o que interessa.
Alguém
pode dizer: Pronto! Lá vem esse cara do Nordeste dizer que São Paulo
não deve comprar computador para colocar na escola porque é mais
caro. Certo, nordestino não deve meter a colher de pau no mungunzá
dos outros. Mas é preciso lembrar que, no Brasil, quem mais entende
de rede é nordestino mesmo. Pode não ser a rede da Web, mas da outra
a gente fala horas sobre, manta, franja e punho numa boa.
Brincadeiras
à parte, o certo é que o alerta tem que ser dado porque na idéia
de vender impulso, as companhias telefônicas já estão começando
a conversar sobre o tema Internet na escola. Isso, de tabela, quer
dizer a colocação de milhares de CPUs nas escolas, milhares de horas
utilizadas e, no final, audiência, que é o que todo mundo quer hoje
na Web.
É por
aí que o caldo da sopa de dados começa a engrossar e nós, os contribuintes,
vamos dançar. Que uma telefônica venha com o discurso de vender
impulso ainda que disfarçado de acesso à Internet, tudo bem.
Afinal, o Governo, como o de Pernambuco, por exemplo, pode negociar
um contrato único e obter vantagens corporativas liberando geral
o acesso. Até porque é isso mesmo que ele deseja. O charme do acesso
grátis para os barnabés somando ao e-mail free vai fazer com que,
junto venha o memorando, o relatório e os projetos de gerência do
Estado, que, aliás, é o que interessa. Porque que fazer isso sem
o charme da Internet é mais difícil.
O
ruim do processo é que vai ter neguinho dizendo que, para isso,
tem que ter máquina robusta, programa caro e assistência técnica
24 horas. E tome computador fechado com tudo que o servidor não
precisa mas que vem junto.
O
discurso da Internet free no Governo não pode vir atrelado à
idéia de vender máquina cara. Rápida sim, mas sem aqueles penduricalhos.
Se o Governo for capaz de ter programas, uso de Internet baseado
em redes distribuídas com linha dedicada e que, na ponta, coloque
à disposição da escola apenas um monitor, um teclado e um
mouse mais uma impressorinha de uso comum, o custo vai lá para baixo
e o resultado será muito melhor.
É preciso
não esquecer que o objetivo é o acesso democrático à informação
seja ao aluno, ao professor, ao enfermeiro, ao médico, ao tenente
e ao praça. Até porque eles são consumidores em potencial.
O alerta
é válido porque todo mundo sabe que hoje o Estado brasileiro, nessa
onda de redução de custo da máquina administrativa, está sem condições
de, sequer, formar cultura de automação. Não pode contratar técnicos
e nem treinar os seus funcionários para essa nova tecnologia, que
significa dizer que, se o governante não definir um norte, o pessoal
que quer vender apenas kit multimídia, HD e programa de computador
vai fazer uma festa.
O Estado
pode ser um espetacular introdutor de novos usuários da Internet.
Sozinho pode colocar milhões de empregados e contribuintes de uma
só vez na Rede. Mas não pode perder de vista que o foco é a democratização
da informação e não ajudar aos distribuidores de equipamentos a
ganhar mercado. Até porque nem ICMS vai arrecadar já que a alíquota
está diminuindo em nome da competitividade local.
Até
semana que vem.
*Fernando
Castilho (castilho@jc.com.br)
é jornalista há 24 anos e assina a coluna JC Negócios
no Jornal do Commércio, de terça a domingo.
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