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12-10-2001
A censura na casa dos outros

Já se disse aqui que a Imprensa norte-americana de forma geral tomou a decisão de não exibir para o mundo os pedaços de seus compatriotas mortos no atentado do World Trade Center. Pode dizer que ela não teve acessos aos cadáveres. Certo, mas o máximo que eles ofereceram ao mundo através de suas agências de noticias foram os sacos pretos com os restos mortais das vitimas. Era compreensível.

Mas, desde a última quinta feira, a imprensa americana tomou a sua mais drástica decisão na mídia eletrônica ao avisar aos seus telespectadores que vai censurar ou auto-censurar os trechos de pronunciamentos de lideres talebans sob o discutível argumento de que esses pronunciamentos podem ter mensagens cifradas que seriam ordens para novos atentados.

A imprensa televisiva que já havia tomado a decisão de não mostrar seus mortos em pedaços agora se imola ao submeter-se ao argumento do Pentágono de que pode colaborar involuntariamente com novos atentados.

Seria lógico que o Governo apresentasse ao mundo um conjunto de informações que permitisse ao leitor ouvinte ou telespectador comparar informação com o que é publicidade e propaganda de guerra.

Mas não é isso que acontece e, pelo que estamos vendo, os jornalistas americanos estão longe do front e até longe das fontes de comando dos navios e porta-aviões para saber o que está sendo feito. Estão recebendo imagens e textos previamente preparados para mostrar o sucesso da empreitada.

O terror das cinco maiores redes de TV americanas não é original e impede que os países que depende de suas informações não tenham todas as visões dos fatos. No passado recente e no Vietnã, elas também aceitaram as informações do Governo americano e, um belo dia, acordaram com a invasão da embaixada dos Estados Unidos em Saigon. Também apresentaram os dirigentes vietnamitas como heróis e depois viram que não eram tão honestos assim. E estão cada vez mais próximas de apresentar os dirigentes da Aliança do Norte como um Governo que existe.

O que parece calor que a média americana não percebeu é que hoje existe nos demais países uma certa preocupação com os excessos do Vietnã e do Iraque. E que, se as manifestações existem no mundo Islâmico, elas têm que ser mostradas e advertidas. A sociedade não admite o desastre do terrorismo. Mas não quer formar sua opinião sem todas as versões.

Bom, mas e o que tudo isso tem a ver com Web e Internet? Porque depois da TV se imolarem, o Governo vai prestar atenção no que existe na Internet. Ele já tirou do ciberespaço tudo que poderia ser informação de arma e equipamento. Vai pressionar depois para que as transcrições dos depoimentos dos líderes talebans também sejam supridos.

Talvez o pessoal da Web nem tenha percebido, mas, como ela está hoje na casa dos cidadãos mais alfabetizados e formadores de opinião, será o próximo alvo. E, se não cuidarmos de nos proteger agora, poderemos ser a próxima vítima.

Até semana que vem.

*Fernando Castilho (castilho@jc.com.br) é jornalista há 24 anos e assina a coluna JC Negócios no Jornal do Commércio, de terça a domingo.

 

Coluna atualizada às sextas