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13-10-2000
Internet boa tem que ser paga 
É
conhecida uma historinha de um gerente de banco que chegou numa
fazenda querendo vender um titulo de captalização
a um caipira com o argumento de que, no negócio, o banco
ganhava, o cliente ganhava, a economia ganhava, enfim, todos ganhavam.
O homem ouviu calado, pensou e saiu com apenas uma pergunta. Tudo
muito bom, tudo muito bem, mas, doutor, quem é o trouxa que
vai perder tanto dinheiro para nós ganhar tanto?
A idéia de Internet Gratis sempre intrigou as pessoas que
acreditam nisso como negócio sério. Falo das pessoas
que querem ver essa nova mídia se institucionalizar, virar
mercado de trabalho e fazer muita gente ganhar dinheiro honesto.
Por isso mesmo esse pessoal sempre olhou esta conversa de Internet
Grátis com uma certa desconfiança nos números.
Afinal, se todo mundo ia ganhar, quem seria ou trouxa que ia perder
tanto dinheiro para tanta gente?
A palavra trouxa é a mais adequada. Muita gente que está
no mercado de passagem anda fazendo boa barte dos investidores de
trouxa. Na esperança de que eles aceitariam botar seu dinheiro
ali por séculos e séculos sem fim, amém. Como
se isso durasse pelo menos uma vida humana.
Ganhariam
os captadores, com suas comissões fixas e reais, os donos
de algumas dessas empresas de muito charme na mídia e até
alguns profissionais que conseguissem se colocar antes da galera
de ofício. Tudo isso oferecendo serviço e informação
de graça. Não durou muito. Aconteceu o que seria mais
lógico: as empresas que não têm receita, ou
que não vendem o seu conteúdo, estão encolhendo.
Vão encolher mais e até desaparecer.
Primeiro, porque uma grande parcela delas iria desaparecer mesmo
depois de ter torrado uma montanha de dinheiro de alguns incautos.
Outras, porque o negócio que escolherem está saturado
na Rede e não tem mais diferencial. E o resto porque, naturalmente,
o mercado faz a escolha dos melhores para pô-los no topo.
E isso não é de graça.
Se a gente observa o discurso das empresas de Internet Gratis vai
ver que estavam dando um brinde, mas não estava oferecendo
muito. Não tinha apelo para ser visto e o cliente estava
apenas o utilizando como acesso a um outro produto melhor que podia
ser de graça, mas era melhor que o apelo do canal a oferecia
como diferencial.
Já se disse que Internet é veículo. Mídia,
ponte para se chegar a algum lugar. Só que, para isso, tem
que se cobrar pedágio. Há uma grande ilusão
de alguns desenvolvedores de que o público quer tudo que
é de graça. Não é isso. A máxima
de que, de graça, até injeção da testa
é bom, não tem sustentação no mundo
real.
As pessoas compram produtos que julgam necessários a si e
a suas familias. Podem até aceitá-los de graça,
mas querem comprar, decidir, escolher e sentir alguma vantagem.
Aquilo que é oferecido de graça para todo mundo perde
valor. Porque, mesmo na Web, todo mundo quer ser um cliente personalizado.
A Internet pode até ser de graça, mas alguém
terá que pagar por isso. Pode ser oferecida a um cliente
como um brinde, desde que ele se apresente merecedor diferenciado.
Felizmente, o crescimento da Web está fazendo um bando de
gente sonhadora e outro de gente desonesta mesmo cair na real. Ainda
bem.
Até
semana que vem.
*Fernando
Castilho (castilho@jc.com.br)
é jornalista há 24 anos e assina a coluna JC Negócios
no Jornal do Commércio, de terça a domingo.
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