14-07-2000
Ouro dentro de lata do lixo

Quem gosta de 'peruar' sites de tecnologia de informação soube, esta semana, que ficou pronto um estudo, o "Sizing the Internet" (Dimensionando a Internet), conduzido por uma empresa americana chamada Cyveillance, que estima em dois bilhões o número de páginas na Internet. O trabalho indica ainda que, por dia, algo em torno de sete milhões de páginas são criadas diariamente. E conclui dizendo que, daqui a um ano, a Internet abrigue nada menos que quatro bilhões de páginas.

A Cyveillance, segundo a nota distribuída na própria Internet, revela que, para isso, usou um complexo modelo estatístico batizado de NetSapien pesquisando nada menos que 350 milhões de links durante quatro meses.

Até aí nada demais. Afinal, todo mundo sabe que a Web virou uma mídia espetacular e, embora ainda esteja em busca de um caminho de como se consolidar como isso, todo mundo sabe que é irreversível.

Mas uma coisa chama atenção do trabalho da Cyveillance. Ela confirma que a grande maioria dessas páginas é inútil e, por causa da quantidade, é cada vez mais difícil encontrar informações na Internet. E conclui: apenas 0,01% de todas as páginas da Web podem ter alguma utilidade para uma pessoa comum.

É aí que o mouse torce o rabo. A Internet, que tem uma serventia espetacular, virou - como era natural - um depositário de lixo digital que não serve de nada. E o pior: que atrai mais lixo. Não falo do lixo intelectual produzido com fins criminosos, como pornografia, antisemitismo ou apologia às drogas. Falo de lixo lixo intelectual imbecil mesmo. De terabytes de textos que são absolutamente inúteis e que entopem o seu e-mail com gigabytes de coisas que você não pediu e nem quer resolver.

Entretanto, existe um lado positivo naqueles 0,01% - são por onde a Web vai caminhar e por onde temos que concentrar nossas energias positivas. Na verdade, a Web ainda vive num drama shakespeareano de ser ou não ser um veículo que pode fazer anúncio efeciente, por conta das limitações da tela do monitor. Porque o máximo que se conseguiu foi colocar um reclamezinho num banner, num pop-up ou um sleesh que passa na página e no qual diz que se vende isso ou aquilo.

Porque, no fundo, no fundo, os publicitários ainda não sabem como é que se faz para que o freguês da Internet prenda sua atenção no monitor e veja o que acontece. Claro, existem alguns estudos clássicos que falam no anúncio em cima da tela. Exceções à parte, publicidade na Web é muito sem graça. Mas isso não quer dizer que ela esteja condenada a não ser um mídia convencional. E é exatamente naquele nicho de notícias que acredito haver um caminho para a Web se firmar.

Quem se der ao trabalho de observar como esta semana o País passou a acompanhar na Internet as ligações do juiz Nicolau dos Santos Neto viu que as agências nunca estiveram com tanta audiência. Gente clicando e clicando para ver o que saía a cada minuto... E o que estava além das noticias? Aqueles mesmo banners institucionais, que, de tão vistos na página, já se transformaram em arquivos permanentes na memória do internauta.

Tradução: as agências de notícias, exatamente as que está pipocando a audiência na Web, não viram que, neste momento, o banner tem que ser comercializado e colocado para que, ao abrir a página, o cliente veja algo novo lá também.

Parece-me claro que o futuro da Web como mídia é atualização minuto a minuto. Mas será que o anúncio da página da nova notícia tem que ser o mesmo? Parece-me que não. Afinal, só vai rever o site o cliente que achar nele algo de útil. E, se for assim, por que não se rever o custo do anúncio no setor de últimas notícias?

Até semana que vem.

*Fernando Castilho (castilho@jc.com.br) é jornalista há 24 anos e assina a coluna JC Negócios no Jornal do Commércio, de terça a domingo.

Coluna atualizada às sextas