16-06-2000
Via alternativa ou mídia essencial

Dia desses, conversando com colegas da geração alfabetizada ainda ao som da leitura do livro, da TV sem transmissão vivo e que se criou jogando com amigos em várzeas e terrenos - que hoje abrigam espigões guardados por circuitos interno de TV e shopping centers -, rolou um discussão sobre qual seria o perfil do consumidor pós-Internet e a que emoções estariam condicionadas suas compras.

Essa idéia, que alguns sites já andam testando com e-moço e e-moça, de se viver totalmente dependente da Web pedindo do Windows 2000 ao sanduíche do McDonald’s, via modem. Do débito em conta corrente à compra do MP3, tudo entregue por um sujeito com a cara de atleta de 400 metros rasos como naquele comercial da TV por assinatura da UPS, o gigante americano de entregas rápidas.

Levantei a questão de que a geração do futuro podia ser higt-tech, mas nunca ia abrir mão de perder a emoção da compra. Podia usar o dinheiro de plástico - não o cartão de crédito, mas o cartão inteligente de banco que vai virar papel moeda -, mas nunca iria deixar de ter real ou dólar no bolso . E que a Internet não poderia ter emoção mesmo com tela de plasma.

Fui voto vencido. As pessoas tendem a apostar da democratização do acesso a todas as parafernálias da indústria de bens de consumo (duráveis, não-duráveis e inúteis) como elemento de transformação cada vez mais rápida de usos e costumes. Na mesma velocidade que as coisas vão acontecendo à medida que o bicho homem, teoricamente, adquire mais conhecimento.

Eles têm razão na idéia de, que no futuro - conto daqui a menos de mil dias -, ninguém vai estar mais interessado em discutir com um vendedor mal treinado uma dúvida que possa ter, se na Internet leu tudo sobre o produto.

Não vai depender do vendedor para escolher o modelo de uma peça, pois, se precisar saber se é anti-alérgica ou não, poderá dispor na Internet de todo o nível tóxico dos tecidos empregados nela, se não fornecido pelo site da loja, mas pelos fabricantes da peça ou das matérias-primas.

E aí? Como vai precisar reagir o varejo diante de um consumidor tão informado. Tão ciente e consciente de seus direitos. E de que forma a sociedade vai se comportar quando a Internet deixar de ser uma mídia alternativa para se transformar numa via essencial para o mais romântico dos mortais?

Essa talvez seja a grande questão que todos os que de alguma forma já foram contaminados com o vírus (no bom sentido) da Web precisam refletir. Porque, apesar de todo o barulho que a Internet faz, da revolução que ela está processando na indústria da velha economia, a Internet como mídia ainda é um veículo alternativo.

Basta ver o volume de propaganda que ela gera hoje comparado com a festa que existe nos jornais e nas TVs. Certo, há, na verdade, ainda um enorme vazio na publicidade de como se comportar com esse novo veículo. E, enquanto isso, eles vão faturando com a mídia tradicional com a desculpa de que a Web ainda não tem visibilidade. Mas isso é conversa para internauta dormir.

Na verdade, a publicidade simplesmente não sabe o que fazer para, num page view, atrair a atenção do freguês. E isso pode até funcionar hoje quando a geração de consumidores, criados ao som das emoções dos livros impressos, ainda mandar na economia. Mas será que isso vale daqui para o futuro? Se alguém tiver alguma idéia, o e-mail está aí embaixo.

Até semana que vem.

*Fernando Castilho (castilho@jc.com.br) é jornalista há 24 anos e assina a coluna JC Negócios no Jornal do Commércio, de terça a domingo.

   

Coluna atualizada às sextas