17-11-2000
O dia em que a privacidade acabou


Era uma vez um país cheio de gente ávida por tecnologia, extremamente receptiva a modismos inovadores e que um certo dia descobriu o computador.
Não tinha dinheiro para comprá-lo, mas o crediário deu um jeito e todo mundo passou a ter um e danou-se a fazer tudo pela Grande Rede.

Alguns mais entusiasmados até acharam que podiam dispensar o sexo tradicional e de qualidade ISO 9004 pelo asséptico e insosso sexo virtual. E uma boa parte entendeu de fazer tudo pelo computador. Em pouco tempo, o único contato com o banco resumia-se à visita a uma caixa eletrônico cheio de opções de serviços para saque de algum dinheiro para pagar algum serviço que ainda não aceitava o cartão de débito, já que até o de crédito estava superado.

E o mundo high-tech ficou muito chato. As pessoas baixavam os catálogos de produtos e viam todos os detalhes técnicos e compravam numa loja que não sabiam onde ficava, nem quem era o sujeito que tirava o pedido e muito menos de que era feito.

E as cidades cada vez mais desertas com as pessoas dentro de casa grudadas nas telas de seus computadores passaram a se falar menos, pois, de tanto estarem juntas, já nem tinha mais o que conversar pessoalmente. Só se revelavam expansivas nas salas de IRC onde podiam dizer o que pensavam e ser feliz.

E tudo foi ficando muito chato. Cheio de chips e downloads cada vez mais chatos. Tão chato que ninguém fazia nada imprevisível, a ponto de não ter mais nenhuma razão para o banco existir, pois de tudo os computadores cuidavam e diziam até as taxas de juros a serem cobradas.

Até que um dia as pessoas saíram às ruas e viram que tinham um mundo de gente que vivia melhor, fazendo as coisas normais, indo aos shoppings, pegando transporte, trabalhando horas a fio e se divertindo até com as pessoas presas naquele mundinho tecnológico, idiota e rigorosamente sem que todo mundo soubesse de tudo, depois de algum tempo já não tinha novidade imprevisível.

E viram que todo aquele aparato tecnológico só tinha sentido se fosse para ser usado e contestado. Até porque isso era da natureza do ser humano, que, pelo fervo tecnológico, não precisa ser escravo da tecnologia que produz.

Moral da história: Internet é bom, automação é legal e o computador é um equipamento espetacular. Mas só é útil quando a gente pode dispensar seus serviços e fazer as coisas simples e normais inerentes ao ser humano. Como ser ele mesmo dono e sua privacidade. Talvez isso ajude a quem está entrando na Web achando que descobriu a luz e tudo nela é permitido.

Até semana que vem.

*Fernando Castilho (castilho@jc.com.br) é jornalista há 24 anos e assina a coluna JC Negócios no Jornal do Commércio, de terça a domingo.

Coluna atualizada às sextas