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19-10-2001
Tiro na confidencialidade da Web

Se a vida (virtual) na Web já não era a mesma desde o dia 11 de setembro, ficou mais complicada a partir desta semana passada, depois que entraram em vigor as novas determinações do Congresso Americano que autorizou o FBI a bisbilhotar tudo que é e-mail de site ancorado nos Estados Unidos.

As pessoas poderão dizer que, com as novas medidas, os negócios da Rede terão maior confiabilidade, que as pessoas estarão mais seguras de que estão falando com quem pensam que estão falando. Mas e daí? O que adianta tudo isso se você tem certeza de que alguém pode, a pedido da justiça, ler o que você escreveu?

O problema é que essa solução do governo norte-americano, atendendo à paranóia do FBI desde que a Web explodiu de ver tudo quanto é terrorista atrás do ícone Enviar, vai mesmo é retardar os esforços que se fazia para legitimar os negócios eletrônicos.

Vai criar uma série de desconfianças e o mais importante: aumentar custos das empresas para tentar atender a todas as recomendações do Governo norte-americano que termina se disseminando pelo resto do mundo como procedimentos de rotina uma vez que os Estados Unidos são donos de metade do tráfego da Web.

O problema disso tudo não é o fato de a Web ser mais segura ou não. De ter mais ou menos recursos de criptografia. É saber que, por força da legislação norte-americana, qualquer site que seja abrigado lá está sujeito a uma investigação policial.

As pessoas acham que isso só atinge norte-americanos, mas se esquecem que todas as empresas de real volume da Web e que possuem escritórios no Brasil, por exemplo, têm sistema de redundância lá. E se eles estão lá podem ser rastreados.

Alguém pode dizer: 'Mas hoje as empresas já rastreiam isso'. É normal os procecimentos de controle da WEB pela empresas. Certo, mas isso eu sei quando a empresa me dá uma senha para usar no escritório. É aí que a coisa pega. Uma coisa é você saber que uma empresa pode ter acessos aos seu e-mail; outra é ser surpreendido com um agente federal lá nos Estados Unidos entrando pela porta dos fundos do planeta.

Tudo isso vai criar entraves. O cidadão comum vai pensar duas vezes no momento de comprar pela Web e fornecer seus dados. E vai ser mais restritivo. As empresas poderão ser prejudicadas.

É muito ruim saber que um policial pode, com uma chave especial, entrar no código do programa. Porque, com a neura da guerra e do terrorismo, tudo estará justificado em nome da segurança nacional.

É ruim. Uma coisa era a indústria investir em sistema de proteção, criptografia e sistemas de redundância e proteção. Isso, como estava sendo desenvolvido, era afirmação de liberdade da indústria. Hoje, com essa autorização virou uma expressão de autoritarismo.

Ou seja, essa conversa de poder ao Governo dos Estados Unidos está tirando o charme da Web. A esperança é que, com o tempo, essa neurose passe e se veja que não valeu a pena tanto cuidado. Perdemos tempo.

Até semana que vem.

*Fernando Castilho (castilho@jc.com.br) é jornalista há 24 anos e assina a coluna JC Negócios no Jornal do Commércio, de terça a domingo.

 

Coluna atualizada às sextas