21-09-2000
Nu, porém, mais ou menos vestido

Os historiadores relacionam os romanos como um dos povos que organizaram os primeiros tratados escritos de Direito. Mas, com certeza, nenhum país se preocupa mais com isso, de forma escrita e minuciosa, como os Estados Unidos. É como na única lei (não escrita) do Jogo do Bicho, criada no Brasil, pelo Barão de Itararé: Vale o que está escrito. Talvez por isso, dificilmente, eles percam debates internacionais.

Agora que a Internet virou um coisa global de fato e caminha para ser uma ferramenta de mídia e de negócios, eles dão uma prova de como a lei do "vale o que está escrito" é importante lá. Esta semana, o senador republicano Orrin Hatch foi ao plenário exibir e disponibilizar um guia contendo alternativas para resolver os impasses legislativos relacionados à privacidade online.

O documento tem o nome de "Know the rules, Use the tools" - que no português seria alguma coisa como "Conheça as regras, Use as ferramentas" - e revela uma coisa interessante que nós aqui no Brasil (o país dos advogados, não do Direito) já começamos a sentir na caixa do correio eletrônico: a idéia ingênua de que a conduta de uma pessoa na Internet é anônima.

Particularmente, prefiro mais aquele velho conceito de que a Web é uma enorme sala com todo mundo falado ao mesmo tempo. Só que uma pessoa se dirigindo a outra e vice-versa. Mas tem gente acredita que isso é privacidade? Mesmo que há tempos tenham sido inventados os cookies que guardam nomes, números de cartões de crédito, endereços de e-mail, preferências de consumo e outros dados toda vez que o usuário se conecta a uma página na Web?

Tudo isso tem a ver a com a fragilidade daquela afirmação das páginas de bancos, por exemplo, onde se lê que "a instituição tomou todas as precauções para que você possa realizar suas transações bancárias com total segurança".

Ou aquelas em que o texto diz, mais ou menos, assim: as informações transmitidas entre você e a gente passam por um processo moderno de criptografia com chave de 128 bits, utilizando-se do SSL (Secure Socket Layer). Que codifica e descodifica as informações que trafegam entre nós e você. É uma tremenda bobagem. Se alguém quiser entrar na tua conta entra mesmo, como os governos vasculham informações de supostos criminosos.

Mas o pior é o caso das chamadas pequenas invasões de privacidade. Quando você entra num site, faz um cadastro com a mais pura das intenções, com informações pessoais que, juntas, formam uma boa amostra, e o sacana do site distribui isso para todo mundo - que dana-se a mandar tudo quanto é entulho para você.

É isso que está fazendo as pessoas não acreditarem na Web como um negócio sério e de futuro. E que impede vôos mais altos. Porque política de privacidade é fundamento no jogo da Web. Pelo menos nos sites que se pretendem sérios. Afinal, tudo bem que estejamos todos nus numa praia deserta sob um sol maravilhoso. Agora tem que um sacana ficar mostrando, a todo mundo, o tamanho seu pingulin?

Até semana que vem.

*Fernando Castilho (castilho@jc.com.br) é jornalista há 24 anos e assina a coluna JC Negócios no Jornal do Commércio, de terça a domingo.

Coluna atualizada às sextas