23-06-2000
Na Web imagem é tudo

Ficou pronto, esta semana, o primeiro grande trabalho do Instituto Marplan Brasil Ltda sobre o perfil do internauta brasileiro. Foi feito com base numa comparação nos seis principais mercado do país (São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte, Salvador e Recife), nos primeiros trimestres deste ano e do ano passado, onde se observa que o freguês da Web tem uma auto-estima forte, está de bem com a vida, pode comprar através da grande rede, mas precisa ser trabalhado muito.

O trabalho do Marplan, que está disponível apenas para os clientes do Instituto, é feito com base num grande questionário que vai muito além da simples medição de acesso. E das perguntas via Internet sobre o que o internuata acha da vida e dos "achômetros" que existem disponíveis por aí, feitos pelos mesmos consultores de juraram esta semana na Web e davam como certa a opção do Brasil pela freqüência 1.8 e que, como seu viu, erraram feio. É mais profundo e revela o perfil do internauta com base em alguns milhares de questionários feito com gente que está e que não tem computador. Que usa e que não usa esta quarta mídia. É seguramente mais honesto.

E o interessante é que ele começa confessando que "entender a Web vai exigir muito mais ferramentas estratégicas para se decifrar o perfil do internauta, porque mensagens criativas isoladamente não nos levarão até eles". O desafio, diz o estudo do Marplan, é quantificar os níveis de substituição de outras mídias pela Web. Porque o relacionamento dos consumidores terá que ser construido é sobre a marca. O que, sejamos honestos, vai exigir muito mais que apenas banners animadinhos. Mas vejamos o que dizem os números.

Nos seis mercados, entre um ano e outro, o número de usuários cresceu 36%. São Paulo está ponta dos com micro (17%) e Recife na rabeira com 91% de sem micro. Diz também que a relação homem/mulher internauta está mais ou menos equilibrada - 55% entre os adultos e 51% entre os jovens, com a informação de que entre os internuatas de carteirinha 43% tem o micro em casa.

Isso remete à primeira constatação incessante: uma vez com micro, quem mais se pendura nele é o adulto e não o jovem como muita gente pensa: 78% contra 22%. E até nas escola (aí, é claro, incluindo-se as universidades) os adultos ganham folgado: 82% contra 18% da meninada com menos de 18 anos. Quando a gente pergunta o que eles vão fazer lá, vem a constatação de que entre os jovens Internet serve para - pela ordem - bater papo no IRC (chats), fazer pesquisa educativa, passar mensagens, jogar e fazer download.

Entre os adultos a preferência é a correspondência, pesquisa educativa, pesquisa profissional, chats e ver jornais e revistas. E aí mais uma coisa interessante. Internet ainda é sinônimo de notícia no Brasil. Tanto quanto esporte. Entre os adultos o que se vê é notícia, cultura geral, esportes e programação de lazer. Entre os jovens ganha esportes, notícias, cultura geral e (pasmem!!) programação de lazer.

Ou seja: é claramente perceptível que o acesso à Internet ainda se baseia na busca de informações e o dado interessante (e o que vale para quem pensa nisso como negócio) é que, pela ordem, vem o homebanking, a pesquisa de preço, dicas de turismo e informações econômicas. Sexo e site de sacanagem? Nem pensar. Entre os jovens mal passa de 4%.

E o que compra essa "gentem"? Pelo trabalho do Marplan o CD é mercado do momento. Depois vem - entre os jovens - roupas, livros, computador e equipamento de informática. Entre os adultos a ordem depois de CD é livro, equipamento de informática, produtos de supermercado e programa de computador.

Mas e o que isso representa comparando-se mercado normal x mercado na Web? Uma merreca! Mesmo em relação a disco o volume de vendas via Web é 2,23%. No setor de roupas 0,32%. E isso levando-se em conta que entre os jovens 20% tem cartão de crédito e entre os adultos 55%. Ou seja, tem potencial. Mas tem muito mais desafio.

O Marplan fez uma avaliação muito interessante sobre o confronto Mídia Impressa X Mídia Digital. Dos leitores de jornal neste seis mercados, 21% tem acesso a Internet mas apenas 5% lêem jornais nela. Em relação aos leitores de revista, 21% tem computador em casa mas apenas 5% as lêem na Web.

Quando se fala em TV, embora 14% tem acesso a Web, apenas 4% troca o horário nobre do jornal nacional e da novela pelo surf digital. No rádio, onde o horário nobre é das 7 às 10 horas, a faixa de AM só bate nos 3%. Na FM, sobe para 4%. Tradução: a Internet ainda vai levar tempo para tirar gente das três mídia tradicionais. Mas não tenha dúvidas: ela vai chegar lá e rápido.

O resto é dado sobre o que o internuata tem no lar, onde se consolida a idéia de que na classe A o acesso a Internet já chega a 35%, na classe B aos 47%, na classe C até 21% e, na classe D, só chega a 6% entre os jovens (explicado talvez pelo acesso via escola).

E a constatação sobre internauta é que ele é animado paca! Gosta de comer fora de casa, de ouvir música, assistir filmes em vídeo, receber amigos, comprar em shopping, ler livros, viajar nos finais de semana, fazer chusrasco, ter gato e cachorro, quer saber sobre medicina e saúde, ecologia e meio ambiente e planeja viajar nos próximos meses.

Resumindo: está como a auto-estima lá em cima. Ou, como se pode dizer, de bem com a vida, apesar da crise. Agora, como a Web pode vender produtos e serviços para eles, nem o Marplan e muito menos eu sei. E se alguém souber me avise.

Até semana que vem.

*Fernando Castilho (castilho@jc.com.br) é jornalista há 24 anos e assina a coluna JC Negócios no Jornal do Commércio, de terça a domingo.

Coluna atualizada às sextas