20-10-2000
Máquina cara e ruim

Sem querer botar gosto ruim no projetão dos bancos brasileiros de vender, nos próximos 12 meses, alguma coisa perto de mais dois milhões de PC no País, mas está cada dia mais claro que o consumidor não vai ter caixa mensal de agüentar o tranco de um computador na sua casa.

As pessoas ficam fazendo simulações em Pentium III, dentro de salas climatizadas e fazendo contas em belas HP financeiras e acabam esquecendo que, no Brasil do real de FHC, R$ 1.510 (dez salários mínimos) é renda de poucos chefes de familias. Encarar uma prestação de R$ 150 em dois anos não é fácil.

O diabo é que, salvo as exceções da regra, tem muita gente montando pacote financeiro para vender com sucata tecnológica, pontas de estoque de fábrica de placas-mãe e memória RAM de minguados 32 megas que não dá para navegar decentemente na Web. E o pior é que o cliente neófito só descobre que comprou coisa velha depois de pagar três ou quatro prestações.

Mas não é isso que está emperrando as vendas. Na verdade, o cliente nem sabe que está prestes a comprar porcaria. O que está travando a explosão de pedidos imaginados pelos diretores de bancos é que eles não pensaram certo em relação ao custo final da máquina.

Porque, diferentemente dos Estados Unidos, que, com sua renda per capita de US$ 20 mil dólares, entraram na Internet com máquinas de U$ 500 vendidas em promoção pela América Online e tudo quanto é provedor de acesso pago, o Brasil está sendo levado a comprar micro com tudo quanto é penduricalho que, além de impressora, vem com scanner e web câmera que estoura qualquer orçamento.

O resultado é que as vendas estão morgadas. Um pouquinho aqui, outro pouquinho ali, mas venda que é bom, definitivamente não está estourando. Claro, há uma pressão de final de ano com as vendas funcionando como presente de Natal. Mas o fato é que o consumidor está assustado com a idéia de comprometer um salário mínimo de sua renda por daqui há dois anos.

Por isso, é que, apesar do crescimento do número de internautas nos últimos meses com os institutos de pesquisa de mídia achando que se pode chegar até 10 milhões de PC nas residências, o número ainda é insuficiente para se pensar num desempenho mais brilhante da Web entre nós. Na verdade, não compromete mais porque o desejo do brasileiro é estar na Internet e ele vai pagar o preço ainda que mais devagar. Mas, se a gente tivesse uma maquinazinha boa com um precinho legal, ia ser uma beleza. Porque mercado tem.

Até porque quem quer comprar computador quer mesmo é ter acesso à Internet. E ter um prcessador de texto legal, além de uma impressora. E nunca aquele monte de acessórios que vem junto e que dobra o preço da máquina, atrapalha a operação e estoura o saco de quem é novato.

Até semana que vem.

*Fernando Castilho (castilho@jc.com.br) é jornalista há 24 anos e assina a coluna JC Negócios no Jornal do Commércio, de terça a domingo.

Coluna atualizada às sextas