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27-04-2001
O Congresso, o voto e a Web
No
país que se orgulha de fazer a eleição mais
informatizada do mundo e de ter a Receita Federal mais organizada
do planeta a ponto de conseguir fechar as contas de todos os contribuintes
antes do final do primeiro semestre do ano seguinte ao exercício
declarado, a demonstração do Congresso Nacional de
que é capaz de arrombar um sistema de votação
secreta pode ser a senha para daqui a alguns anos a sociedade simplesmente
dizer "ele não tem mais sentido de existir".
Na
prática orçamentária, já não
tem mesmo não. Ele não legisla sobre dinheiro. Na
verdade, apenas desloca uma parte consentida pelo Executivo e ainda
assim faz isso mal. Mais de 95% dos textos legais hoje são
oriundos do Executivo que tem os banco de dados, as fontes de receita
e os projetos, além da chave do cofre. O modelo de representação
congressual está caminhando para o suicídio. E os
próprios políticos brasileiros ajudando muito.
A idéia
do Congresso como casa do povo está indo ladeira abaixo porque,
com o advento das novas tecnologias, é possível se
consultar o povo, via Web, com muito mais eficiência, segurança
e resistência a fraude que em qualquer período histórico.
Porque a Internet precisou desenvolver sistemas sofisticados de
redundância de segurança até para dar certo.
Banco, Comércio, B2B, E-Governo e E-Fisco desenvolveram uma
rede de segurança tão eficiente que, hoje, a Web pode
perfeitamente saber o que os cidadão pensam de determinado
assunto e ter o resultado apurado em tempo real.
O Congresso
teria nesse novo cenário digital a missão de ser crítico,
balizador do pensamento nacional e seus cidadãos. Mas quando
ele próprio se estupra e se denigre, o sentimento de que
é um organismo dispensável se agiganta. E passa a
ser forte no inconsciente coletivo a pergunta: Para que serve deputado
e senador?
Não
é uma idéia boa. É perigoso pensar que uma
ferramenta como a Web pode servir para apressar o fim do Congresso.
Quem vai controlar o Executivo e o Judiciário? Será
que as organizações não governamentais e os
grupos de pressão poderão fazer valer suas opiniões?
Mas
o diabo é que o Congresso não ajuda. Se informa mal,
se equipa mal, se apresenta mal e se deteriora a cada dia. Como
está fazendo agora no casos da violação do
sistema de votação do Congresso. E faz isso mostrando
ao brasileiros que o Congresso nunca se interessou pelo que de bom
a informatização pode fazer pelo País, a começar
pela ampliação das possibilidades de educação.
É
por isso que é bom o pessoal que vive da Web não se
emocionar muito com a idéia de que ela pode ser uma ferramenta
de consulta tão eficiente e segura que em breve poderá
substituir o Congresso em tempo real.
Deixa
ele lá. Ruim, corrupto, ineficiente, burro e mal caráter
mesmo. Mas deixa ele sendo um retrato do que a gente é. Porque,
por mais indignados que possamos estar com esse Congresso aí,
ele é uma mostra do que nós somos mesmo. Com todas
as virtudes e defeitos. É melhor do que não ter nenhum.
Porque, sem ele, a gente corre o risco de que um Executivo e um
Judiciário com poder de informação demais,
um dia usar a Web para perguntar para que serve povo.
Até
semana que vem.
*Fernando
Castilho (castilho@jc.com.br)
é jornalista há 24 anos e assina a coluna JC Negócios
no Jornal do Commércio, de terça a domingo.
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