28--07-2000
Internet para pobre

Pois é: Internet de pobre vai virar tema de estudo em Cambridge, Massachusetts, no Grupo de Tecnologia da Informação da Universidade de Harvard, que é dirigido pelo renomado economista Jeffrey Sachs e está se propondo a dar consultoria a países pobres, na busca de oportunidades trazidas pela economia digital. Como missão encomendada pelos sete países mais ricos do mundo e a Rússia, que compõem o chamado G-8, precisam diminuir a enorme distância tecnológica entre as nações desenvolvidas e o Terceiro Mundo.

A conta é simples: o animado mercado digital comemorado nos países mais desenvolvidos, base de cenários que atestam as possibilidades do uso da Internet como ferramenta de acesso fácil às massas incultas e desprotegidas no terceiro mundo ou países em desenvolvimento e, que, de tabela, representa um colossal mercado de soft a ser explorado, esbarra na simples constatação de que tudo isso é verdadeiro desde que se tenha micro, linha de telefone e programa de computador.

Tudo isso rebate na velha constatação de que, apesar das possibilidades de democratização do acesso ao conhecimento que se propaga nos ambientes luxuosos e freqüentados pelos executivos do setor de Tecnologia da Informação, a realidade social na periferia dos edifícios onde essas conversas se realizam é bem diferente.

Explica um pouco como se enganaram, este mês, os chamados analistas de mercado que desenvolveram toneladas de cenários favoráveis ao sucesso das vendas de ações da Petrobras com o FGTS e que, como se viu, virou o maior mico do mercado. Porque faltou um simples contato com a comunidade interessada.

Pois bem, parece que ficou claro para as nações mais ricas do mundo que, como o cenário de mercado dentro dessas oito economias está começando a dar sinais de esgotamento ou de saturação num futuro próximo, não vai dar para continuar a crescer se os países pobres não puderem comprar máquina para ter acesso a esse benefício. No fundo, o que está se discutindo é como Governo e instituições privadas podem criar formas baratas e simples de acesso à Web.

Ninguém está falando de desenvolver tecnologia. Está se falando de sistemas simples: processador de texto, pequenas planilhas, browser de navegação e correio eletrônico mesmo se possível dos programas de acesso gratuito e universal já que fica difícil - salvo em regime de doação ou participação filantrópica mesmo - se pensar no uso de coisas como Office, Corel Draw, Adobe Photoshop.

E, embora já esteja certo de que vão estar envolvidas instituições como a gigante da informática IBM, a Organização das Nações Unidas (ONU) e o World Economic Forum (WEC), vamos precisar de muito mais gente.

Isso quer dizer capacitação e treinamento de recursos humanos; ampliação do uso da Tecnologia da Informação nas áreas de seguridade e saúde, novas oportunidades para pequenas e médias empresas ingressarem no comércio eletrônico e toda uma parafernália de instituições e entidades dos mais diversos tipos porque o enorme fosso digital entre os países pobres e ricos já está dimensionado. O que falta agora é alguém que aponte um caminho que dê uma chance de acesso dessa ninguezada toda a algum tipo de benefício educacional, cultural e econômico contido na Internet.

Porque se não a explosão da Web, que a gente tanto comemora aqui, vai ter para essa massa o mesmo signficado que tem coisas como carne de primeira, leite tipo A, sabão em pó com amaciante de roupa. Eles sabem que existe, vêem, tocam na embalagem, mas simplesmente devolvem às prateleiras dos supermercados porque não podem acessá-los.

Até semana que vem.

*Fernando Castilho (castilho@jc.com.br) é jornalista há 24 anos e assina a coluna JC Negócios no Jornal do Commércio, de terça a domingo.

Coluna atualizada às sextas