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28-09-2001
Como contar a primeira guerra do século 21?

O discurso do presidente George W. Bush no Congresso Americano na quinta-feira da semana passada - quando disse ao mundo: “Ou vocês estão conosco ou estão com os teroristas” - acabou colocando para a imprensa mundial uma reflexão, feita em tom de advertência. Porque será a imprensa quem vai contar a história da primeira guerra do século 21 e poderá ser a primeira vítima do mau humor do governo norte-americano. Sobretudo quando começar a questionar a tempestade de notícias-propagandas que os Estados Unidos vão distribuir após o início do conflito.

As dificuldades para a cobertura desta guerra já começaram no dia do atentado de 11 de setembro e só têm aumentado. Um pouco, é claro, por uma espécie de consenso da mídia norte-americana em, por exemplo, não mostrar feridos da tragédia. Quem se lembra de ter visto um ferido sendo colocado ensangüentado numa ambulância? A cobertura do atentado ao WTC e ao Pentagono é asséptica.

E as dificuldades de acesso a informações isentas para os demais países só tendem a aumentar. Para começar, de um lado estão os Estados Unidos, donos de metade do tráfego da Internet no mundo, com um colossal volume de informes pelos seus diversos órgãos de governo. Do outro, o Afeganistão, país cujo único meio de comunicação que a população dispõe é o rádio. Lá, ninguém vê televisão, lê jornais e, muito menos, sabe o que é Internet.

O Afeganistão, nunca é demais lembrar, é uma ditadura religiosa que não respeita os direitos humanos, oprime as mulheres e parte de sua população sobrevive, até hoje, graças à ajuda de organizações não-governamentais (na maioria, norte-americanas). Até o dia do atentado, eram estas ONGs que mandavam comida para o país. Mas até essas informações eram censuradas pelo governo taleban.

A história das relações do governo norte-americano nos conflitos de guerra não são de cooperação e distribuição da informação precisa e isenta. Da guerra civil (1861 a 1865) ao Vietnã (1954 a 1975). No livro A primeira vítima, do jornalista inglês Phillip Knightley, está o desabafo estupefato do chefe da sala de notícias da CBS, em 1968, quando viu as imagens do ataque à embaixada norte-maricana, em Saigon, pelos vietcongues. “Como isso é possível? Que diabos está acontecendo? Pensei que estávamos ganhando a guerra!”, disse.

As imagens do ataque, transmitidas ao vivo, foram um choque para os norte-americanos que estavam acostumados com imagens dos fragmentos da guerra distribuídas pelo governo e aceitas passivamente pelos correpondentes. Tão forte que a manchete do Washington Daily News no dia seguinte (1º de fevereiro de 1968) foi “Onde estávamos?”

Os tempos são outros. E os equívocos do Vietnã estão presentes nos manuais das redações. E certo que existe hoje a poderosa fermentada Internet e a CNN até consegue mandar informações por videofone. Mas ninguém deve ter ilusões: quando o primeiro soldado americano desembarcar no Afeganistão, as restrições da parte do Governo Bush só tendem a crescer.

Os problemas morais e éticos desta cobertura já registram casos de esquivos. Os homens presos como suspeitos num hotel em Miami, no dia seguinte ao atentado, eram técnicos árabes convidados pela Boeing para uma convenção. O terrorista suicida que estaria pilotando um dos Boeings, está vivo e trabalha na Arábia Saudita.

Na verdade, sua foto foi divulgada equivocadamente pelo Governo americano. Sem contar que, em algumas escolas norte-americanas, as professoras estão recomendando que as crianças não naveguem na Internet, porque ali existiriam informações divergentes das informações do Governo.

E, na última quinta-feira, o governo tentou impedir que a Voz da América transmitisse uma emtrevista do líder do Taleban, o mulá Mohammed Omar. Não vai ficar só nisso. E é bom saber que a Web não vai estar livre de pressão para não mostrar tudo.

Phillip Knightley lembra que uma pesquisa do Instituto Gallup, em meados de 1967, revelou que metade de todos os americanos não tinha idéia dos motivos da guerra do Vietnã. A situação hoje é diferente. Nos atentados em Nova Iorque e Washington, onde morreram mais de 6 mil americanos (entre eles, alguns muçulmanos), o nível de informação disponível é infinitamente maior de que há 35 anos. Mas as restrições às informações serão inevitáveis depois de um ataque ao Afeganistão.

A Guerra do Golfo, no início dos anos 90, na verdade, foi quase um videogame para os pilotos norte-americanos, embora para os iraquanos tenha sido devastadora. Mas, nesta guerra de agora, haverá um conflito adicional, que vai além das operações militares, das ações de verdadeiro combate ao terrotismo: as restrições ao trabalho dos jornalistas, quando começarem a surgir as histórias das atrocidades dos dois lados. E por isso é bom lembrar a conhecida frase do senador norte-americano Hiran Jonhson: “Quando começa a guerra, a primeira vítima é a verdade.”

Até semana que vem.

*Fernando Castilho (castilho@jc.com.br) é jornalista há 24 anos e assina a coluna JC Negócios no Jornal do Commércio, de terça a domingo.

 

Coluna atualizada às sextas