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31-08-2001
Quem sabe faz ao vivo
Silvio
Santos é, definitivamente, o maior comunicador em língua
portuguesa que se conhece. É capaz até de transformar
um seqüestro do qual foi vítima - portanto, uma situação
limite - num evento de mídia tão espetacular que será
estudado daqui para frente não apenas pela polícia
- para revisar todos os seus manuais de procedimento e abordagem-,
mas por dezenas de segmentos, inclusive a Web, para retirar dele
suas lições.
O seqüestro
de Silvio Santos tem componentes dramáticos (alguns até
agora não esclarecidos) como, por exemplo, o porquê
dessa deferência dele e sua filha para com seqüestradores,
porque tende a passar a idéia romântica sobre um crime
hediondo e que, nos demais casos, é grave e aterrador. Seqüestrador
é um criminoso escroque porque se aproveita do sentimento
humano para perpetrar seu crime. Mas, no de Silvio Santos, ele virou
evento de mídia.
Os
números vão dizer que, além dos piques de audiência,
as pessoas foram para Web catar notícias mais profundas sobre
o que viam na televisão. Fora do Brasil, todas as redes estavam
ao vivo monitorando o assunto que virou tema de links especiais
e todos com grande volumes de acesso.
Mas
é preciso atentar que, durante todo o tempo, Silvio Santos
não estava dominado como todo seqüestrado ou refém
comum. Estava no comando da ação. A própria
relação do seqüestrado Fernando Pinto, ao lhe
pedir ajuda e proteção, já era de dominado.
Certo, ele expulsou os familiares de Silvio Santos da casa e aterrorizou
sua família. Mas Silvio, desde o começo, o dominava
apesar de ter sob a cabeça duas armas. E é preciso
atentar que só ele, Silvio Santos, podia fazer isso. Direto
de sua cozinha, dominando a mídia.
Senão
vejamos:
Silvio, dominado, atraiu a atenção de todas as redes
de TV, rádio, jornais e Web.
Silvio,
dominado, levou para sua casa desde o comandante geral da Policia
Militar, que substituiu o procedimento normal de um negociador impessoal
como mandam os manuais de polícia. Fez mais: levou para lá
o secretário de Segurança Pública, que fechou
a negociação.
E Silvio, dominado, fez mais: levou para sua casa o governador Geraldo
Alckmin para avalizar toda a conversa feita e amarrada pelos dois
subordinados. Ou seja, levou para sua casa a autoridade máxima
do Estado para ser fiador de uma negociação que envolvia
em tese a vida do seqüestrador e a sua.
Essa
é a maior demonstração de controle de mídia
da história moderna. O governador só foi lá
porque sabia que, se não fosse e, por desgraça, acontecesse
alguma coisa a Silvio Santos, Alckmin seria responsabilizado pela
morte ou ferimento de um mito, um ídolo, um ícone
nacional. Foi lá, amarrado, porque não podia deixar
de ir.
Mas
Silvio fez mais. E aí mostrou que, desde o começo,
dominou a situação. Ele, Silvio, não foi visto,
nem pelos negociadores ou pelo governador, com a cara de assustado,
com uma arma na cabeça, ou com o cabelo em desalinho. E fez
mais: "Mandou" (o termo é esse mesmo mandou, porque
Alckmin não tinha como não atender) que esperasse
para tomar um banho, trocar de roupa, perfumar-se e sair, sorridente,
de casa para levar seu fiador até a porta com a imagem de
vitória.
Por que fez isso? Porque é a imagem que ele construiu ao
longo de sua vida de 50 anos de sucesso. Ninguém viu ou fotografou
um Silvio triste. Só existe a imagem do homem bem vestido,
arrimado e sorridente. Um vitorioso.
Isso
tem a ver como pôde se sair de uma situação
de risco para uma de sucesso. Silvio vende fé, sorte, esperança,
sucesso e alegria. Não iria deixar de fazer isso numa situação
como essa. Mostrou que é do ramo.
O que
tudo isso tem a ver com a Web? Ora, alguém acha que, se não
fosse a Internet, quem estava fora do Brasil podia acompanhar com
tanta profusão de dados como desde ontem por horas e horas?
E alguém
acha que, se não fosse a Web, seria possível às
pessoas formarem, ontem mesmo, uma opinião com tantas variantes
como formaram depois do final do seqüestro? E mais: o seqüestro
deu uma chance à Web de mostrar como pode ser uma mídia
tão completa, complexa e diferenciada como fez na última
quinta-feira. E só fez isso porque Silvio Santos é
definitivamente um campeão de audiência. Inclusive
na Web.
Até
semana que vem.
*Fernando
Castilho (castilho@jc.com.br)
é jornalista há 24 anos e assina a coluna JC Negócios
no Jornal do Commércio, de terça a domingo.
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