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16-10-2000
Informatização dos serviços de saúde com softwares livres

A eleição municipal deste ano está deixando claro que uma das principais deficiências do poder público (prefeitura e governo) são os serviços de saúde. Independente da prioridade dada pelos canditatos ao problema, uma coisa é certa: a população não conta com seviços de saúde apropriados. Isso é o mínimo que se pode dizer das situações desumanas a que é submetida a maior parte da população nos postos de saúde e hospitais públicos.

Os problemas são tantos: falta de postos de saúde, de programas preventivos adequados, falta de profissionais de saúde, falta de medicamento, violência dentro dos hospitais, corrupção...., que reclamar pela falta de computadores pode parecer perfumaria. Porém, do ponto de vista da gestão pública, com a informatização dos serviços de saúde obtém-se um menor custo de manutenção e um maior controle sobre a gerência administrativo-financeira dos mesmos.

Da mesma forma, do ponto de vista médico, as novas tecnologias auxiliam os profissionais no diagnóstico e tratamento dos pacientes. A revista Info de outubro/2000 mostra um caso bem sucedido de telemedicina entre um hospital de Caruaru e um de Recife, que foi desenvolvido em conjunto com a UFPE.

Somando os pontos de vista da gestão pública com o ponto de vista da medicina moderna, vê-se que a informatização dos serviços de saúde garante um melhor atendimento à população.

Hospital Mário Gatti

Uma experiência bem sucedida de informatização de um serviço de saúde público aconteceu no Hospital Mário Gatti, Campinas/SP. Há três anos, o hospital contava apenas com 12 computadores no setor de faturamento. Outras áreas administrativas e os serviços ambulatoriais e de emergência não dispunham de nenhum recurso tecnológico para agilizar o atendimento dos pacientes.

A equipe responsável pela informatização do Mário Gatti decidiu pela utilização do sistema operacional GNU/Linux e o software de gestão hospitalar Hospub, esse último desenvolvido pelo Datasus. Segundo a médica Walquíria Lisboa Siqueira, chefe do núcleo de informática, na escolha do GNU/Linux não pesou apenas a questão financeira, mas, principalmente, as características do sistema como estabilidade e segurança.

Porém a questão financeira foi muito importante, pois, com a economia obtida com a utilização do GNU/Linux, o hospital pôde investir na melhoria da infra-estrutura, adquirindo mais equipamentos e instalando uma rede de fibra ótica que atende mais de 110 computadores. Hoje os médicos podem acessar informações importantes sobre o paciente em tempo real.


Projetos de Softwares Livres para área médica

Já existem vários projetos de desenvolvimento de software voltados para a área médica. Uma lista bem abrangente pode ser encontrada no LinuxMedNews. Um projeto muito interessante é o GNUMed , que pode ser utilizado em clínicas médicas para acompanhamento dos pacientes.

Novas empresas estão surgindo como a alemã Digital Medics, especializada em processamento de imagens e a espanhola RGB Medical Devices, especializada em equipamentos para Unidades de Tratamento Intensivo (UTI).

Softwares livres estão sendo utilizados também na infraestrutura de serviços de alta tecnologia como telemedicina e pesquisas de ponta como a desenvolvida no Natinal Center For Macromolecular Imaging em Utah/EUA, que utiliza um cluster Linux com 32 processadores.

O software livre possibilita também a países com menos recursos financeiros como a Guatemala utilizar a mesma tecnologia de países desenvolvidos como a Inglaterra, que está utilizando o Linux com muito sucesso em seus programas de saúde.

Software livre PE

Há ainda quem acredite que o GNU/Linux é um sistema para “hackers” ou especialistas da área de informática. Há também pessoas que acreditam que, por ser gratuito, o GNU/Linux não é um sistema tão bom quanto os sistemas proprietários. Há ainda quem acredite que não existe um suporte confiável ao GNU/Linux para empresas e instituições.

Idéias equivocadas como essas estão sendo desfeitas com experiências de utilização do GNU/Linux como no caso do Hospital Mário Gatti.
Como consultor, tenho tido a experiência de implantar o GNU/Linux em alguns hospitais particulares do Recife com o mesmo sucesso. Se a iniciativa privada utiliza software livre, por que o Estado não faz o mesmo?

Esse tipo de preocupação me levou a criar, em conjunto com o vereador Waldemar Borges (PPS-Recife), o Fórum Software Livre PE, que tem como proposta discutir e incentivar a utilização de softwares livres nos órgãos públicos do Estado. No mês de setembro, apresentei a proposta para criação do Fórum ao secretário de Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco, Cláudio Marinho, que, percebendo a importância do projeto, incentivou que o projeto fosse apresentado também à Emprel e Fisepe.

Recebemos um convite do Governo do Rio Grande do Sul, através do diretor executivo da Procergs, o senhor Marcus Mazoni, para uma visita para conhecer as iniciativas que estão sendo desenvolvidas por eles. Segundo Mazoni, a Procergs está economizando 15 milhões de reais por ano utilizando software livre em vários setores do Governo.

Uma das propostas do Fórum é agregar pessoas e instituições com interesses específicos. Se você é um profissional de saúde e/ou informática e tem interesse nesse tema, pode contribuir na criação do grupo de traballho Software Livre na Saúde. Estão sendo criados os seguintes grupos de trabalho: Educação, Saúde, Internet e Novos Modelos de Negócios.

*Cláudio Machado é editor do site Vida Linux e consultor da L&G Associados.

Coluna atualizada às segundas