11-05-2000
Caso Microsoft: donos da verdade
contra a dona do mundo
por
Hugo Pordeus
O sucesso
incomoda. E um sucesso do tamanho de US$ 460 bilhões incomoda
muito. O preço que a Microsoft está pagando pelo seu
poderio, construído ao longo de 25 anos e gerado por uma
série de acertos decisivos na história recente da
tecnologia, pode ser mais alto do que qualquer proeza já
realizada pela companhia. A punição da Justiça
dos Estados Unidos, a ser proferida em 24 de maio, pode ser o começo
do fim do maior império de Informática do planeta.
A especulação
envolvendo as prováveis medidas contra a Microsoft sugere
que a empresa pode ser fragmentada em três grandes divisões:
sistemas operacionais, programas corporativos e Internet. Há
rumores também de que o governo force a divulgação
dos códigos dos softwares da Microsoft.
Está
certo que a Microsoft detém um monopólio, talvez um
dos últimos com proporções tão gigantescas.
Nem por isso deveria estar havendo essa omissão da mídia,
dos outros fabricantes e empresas de tecnologia: se Bill Gates tiver
que engolir a seco uma decisão do governo norte-americano
de abrir o código-fonte do Windows e, pior, de outros aplicativos
produzidos pela Microsoft, estará sendo violada a base de
toda a indústria do software.
A condenação,
se for confirmada, pode prever aplicação de multas,
até dividir a companhia - como já foi feito com a
Standard Oil, de Rockfeller, e com a AT&T - porém revelar
os segredos do sistema operacional e dos programas produzidos pela
Microsoft é esquecer noções básicas
de mercado e de lei, aplicando regras diferentes para iguais.
Em
outras palavras: é procurar um castigo capaz de ferir pra
valer o culpado mesmo que isso não tenha a ver diretamente
com o "crime" cometido. Claro que qualquer conhecedor
do processo antitruste contra a empresa de Bill Gates reconhece
a existência do monopólio, das táticas nem sempre
leais adotadas para desbancar a concorrência, dos acordos
com os fabricantes de hardware...
Mas,
longe da emoção e do ódio contra Gates, qualquer
um ligado à Informática que não seja 'maria-vai-com-as-outras'
deve parar pra analisar a coerência de uma sentença
que obrigasse à divulgação do código
do Windows.
Algumas
perguntas devem ser feitas: por mais espúria que a Microsoft
possa lhe parecer, algum dia lhe enfiaram goela abaixo o Windows?
Ou foi um contexto amplo e complexo que elevou o PC e o Windows
à condição de líderes absolutos de mercado,
e não a Apple, o Macintosh e o MacOS? Pode parecer fácil,
hoje, para os empolgados de plantão, acusar Microsoft e Intel,
por exemplo, de serem vilões.
Outra
questão: se hoje o Windows sumisse do mapa e, em um passe
de mágica, fosse automaticamente removido de todos os computadores
pessoais em que está instalado (90% dos PCs em todo o mundo),
haveria um substituto? O Linux ainda não está pronto
para o usuário doméstico e o MacOS está preso
à plataforma proprietária da Apple. Há pelo
menos uns dez outros sistemas, ainda imaturos, até mesmo
porque não há investimento das fabricantes de hardware
para dar suporte a esses programas.
A Microsoft
está longe, muito longe de ser inocente. Bill Gates, idem.
Mas é estranha a conivência com uma possibilidade bizarra
de inversão de valores. O próximo passo poderia ser
acusar a Adobe de monopólio pela liderança esmagadora
do Photoshop. Parece razoável? E se a Netscape tivesse continuado
a ser a única a ter um browser decente para navegar na Web?
O juiz
Thomas Penfield Jackson já deu a sentença, não
tem volta: pela lei antitruste dos Estados Unidos, criada há
mais de um século, a Microsoft manipulou o mercado para impedir
a concorrência. Motivo: práticas monopolistas ao distribuir
o Windows já instalados em PCs, através de acordos
com fabricantes, logo nas primeiras versões.
Em
1994, o governo americano acatou as alegações de Gates
e fez um acordo. Depois, em 1997, uma nova acusação:
ao vender o Internet Explorer junto com o sistema operacional, a
Microsoft desrespeitou o acordo. Até hoje, é o único
argumento realmente sólido, incontestável, em toda
essa caça.
É
até previsível que a Justiça resolva pelo desmembramento
da Microsoft, o que, na prática, não adiantaria muito,
já que a companhia teria liderança ou forte presença
nos três setores. Talvez seja isso que esteja provocando a
necessidade de uma punição mais, digamos assim, violenta.
Não
sei se a turma do software livre concorda mas a filosofia do código
aberto se baseia em princípios bastante específicos,
que confrontam totalmente com a legislação internacional
(de licenças de software, inclusive) vigente. Liberar a alma
de um programa de computador para que outros desenvolvedores possam
aperfeiçoar o produto é uma mentalidade cada vez mais
forte em todos os meios. Porém, aplicar esse conceito como
uma forma de castigo, de punição, apenas porque o
condenado em questão é o monstro da tecnologia, vai
surtir efeito?
O debate
está aberto: hugopordeus@osite.com.br
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