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10-10-2000
Será que falta rapadura?

Será que é rapadura o que falta aos sulistas para entender a Região Nordeste, com todas as suas incoerências e
belezas? Será que é tão difícil assim assimilar, em
primeiro lugar, que o Norte e o Nordeste são regiões completamente diferentes em suas tradições culturais, na organização social e econômica de sua população e até na quantidade de água de que dispõem – fator decisivo na caracterização de um povo? A verdade é que sempre pareceu proposital essa desinformação dos moradores do eixo Sul-Sudeste a respeito das demais regiões brasileiras, que beira o descaso quando se trata de nordestinos.

Pois não é que agora, depois de anos de ‘vista grossa’ dos sulistas, as novas tecnologias vieram revolucionar essa hierarquia estabelecida entre as regiões do País, e estão elevando o Nordeste, que até então figurara no inconsciente coletivo nacional como terra de ‘lesos’, preguiçosos e iletrados, à categoria de exportador de conhecimentos técnicos, softwares e hardwares de última geração?


Atualmente, o fenômeno a que nós, nordestinos, assistimos – em glória – é o de perdidos sulistas que se esforçam para recuperar o tempo perdido. São empresas em busca do talento e competência dos ‘ciberjecas’. Mas o pior é que muitas dessas corporações que aterrissam em solo nordestino nem se dão ao trabalho de pesquisar sobre as características da Região. Outro dia fui a uma coletiva de imprensa de uma orgulhosa empresa de não menos orgulhosos sulistas, que não tiveram o menor pudor em declarar sua total ignorância sobre as ‘partes altas’ do País.

“Queríamos saber alguns números sobre o mercado local”, repetiam insistentemente os empresários, numa sabatina que deixou atônitos os jornalistas ‘da terra’, incubidos da missão de cobrir o lançamento da tal filial no Nordeste. Mas o pior mesmo foi quando um dos engravatados chegou a tentar, quase penalizado, estabelecer uma parceria conosco, pobres repórteres que estavam “longe do centro do País” – juro que a conversa foi nesses termos.

Ele chegou a dizer que os jornalistas nordestinos que trabalham na área de informática, condenados ao ostracismo intelectual, se limitam a copiar matérias da Internet, tomando somente o cuidado de adequar o material, ou seja, dar uma certa ‘cor local’. Mais uma vez demonstraram total ignorância sobre a produção cibernética regional, mesmo trabalhando nesse mercado e esperando atingir o público local de ‘micreiros’.

Eita preconceito danado, que acoberta incompetentes, despreparados e aventureiros e confere um certo mérito à falta de conhecimentos sobre os nordestinos. Mas tem nada não. O ciberespaço está aí, para mudar as crenças hierárquicas estabelecidas por questões meramente geográficas no Brasil e, quem sabe, conseguir corrigir erros históricos e imperdoáveis dos habitantes do Sul e Sudeste – sim, porque muitos de nós, por vingança, até tentamos manter uma certa distância do dito ‘centro do País’, mas sabemos ao menos distinguir as regiões brasileiras.

 

Coluna atualizada às sextas