11 -08-2000
Escravidão, doce e digital escravidão

Você dorme e acorda pensando em Dreamweaver, ASP, Servlets? Seu sobrenome já é arroba alguma-coisa.com? Conversa mais pelo ICQ com sua namorada do que pessoalmente e acha que algumas pessoas deveriam ter um Ctrl+Alt+Del embutido? Não se preocupe. Se você ainda não está falando apenas com os algarismos 0 e 1, pode ser apenas mais um dos que vivem as agruras e prazeres de estar construindo a Internet que o público vê: os escravos da Web.

Quem vive dela (ou, muitas vezes, já mudou totalmente seu endereço) provavelmente deve estar meio confuso com tamanho rebuliço que vem tomando conta da Rede nesses últimos meses. Quem está de fora - e isso é possível - sabe que, mais cedo ou mais tarde, vai perder a virgindade virtual. Empresas de todas as áreas estão migrando para o mundo digital e carregando junto uma leva de profissionais e criando outros tantos, atraídos por propostas de crescimento rápido.

O que muita gente que apenas navega, sem maiores traumas, não sabe é que, para funcionar, por via de regra, esses profissionais (webdesigners, jornalistas, webmasters, programadores - e a lista tem crescido...) terminam se acorrentando ao trabalho, que precisa de atualização constante e frenética. Muitos deles vão para casa (casa? E isso existe?) e continuam presos à máquina, pensando soluções, checando links, terminando de ler os e-mails do dia e tendo pesadelos intermináveis, até que chega novamente a hora de estar em frente ao micro. E o pior de toda prisão é quando ela é voluntária.

Muita gente contesta essa euforia, mas os números revelam que o setor de Tecnologia da Informação é um dos que mais cresce no mundo. Estima-se que nos Estados Unidos existam pelo menos 1 milhão de vagas. Porém, com a chegada de novas tecnologias, também será exigido muito mais dos profissionais.

Por causa desse mercado tão aquecido, ser um 'operário virtual' virou a primeira opção de muitos. A mídia, de certa forma, criou no imaginário popular que quem trabalha na Web deve ter necessariamente um perfil: ser jovem, descolado e ficar milionário (isso não é mau!).

Mas existe o lado não tão doce na vida desses escravos. Por causa da concorrência, os profissionais da Web terminam tendo baixa estabilidade no emprego, pouca vida social e nem sempre conseguem tempo para se reciclar. A mesma homepage que te abriga pode te engolir. Por isso, a cautela é a palavra da ordem nessa nova economia, na qual as relações profissionais tendem a mudar ainda mais. Ah, e uma pesquisa internacional também revela que são poucos os que recebem os tão ansiados salários astronômicos.

Se você ainda não foi convidado para trabalhar em um site, não se desespere. O bonde da história, ao que parece, não vai passar assim tão rápido. Muita coisa ainda vai procurar o seu eixo. E não duvide se o formato da Internet e de seus profissionais forem outros absolutamente diferentes daqui a alguns meses. Por isso, se pretende entrar nesse mercado, prepare-se para trabalhar em excesso, perder vários fios de cabelo e noites de sono, e, ainda assim, ser totalmente apaixonado pelo que faz.

 

Coluna atualizada às sextas