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12-01-2001
Ego massacrado pelo tempo

O dia 31 de dezembro de 2000 deixou no ar uma sensação estranha. Não foi o fato de estar pensativo sobre o futuro da humanidade e muito menos por estar trabalhando, horas antes dos estouros dos fogos, na frente de um computador. O fato instigante foi que, enquanto vasculhava a Web atrás de novidades, às quatro da tarde, metade do mundo oriental já estava no outro século. À noite, na hora do réveillon, a impressão é de que ele já havia passado, tamanha perecividade da informação que circula na Rede.

A lei do 'aconteceu-publicou-envelheceu' não perdoa. Ela contamina quem vive de produzir conteúdo para Web e até quem arriscou viver, literalmente, mergulhado nos três dáblius. Explico: sob olhares curiosos e muita especulação, o ex-analista de sistemas Mitch Maddox (que teve o nome mudado legalmente para DotComGuy - ou CaraPontoCom) entrou em confinamento no início do ano 2000. O projeto? Passar um ano trancafiado em uma casa vazia, vivendo apenas do que pudesse tirar da Internet. Tudo monitorado por duas dúzias de câmeras, conectadas 24h por dia.

DotcomGuy

Doze meses e muitas pizzas depois, ele sai de casa, sem tanto alarde quanto estreou em sua empreitada e deixando no ar a impressão de projeto envelhecido. Em apenas seis meses, nada do que ele pudesse fazer ali, naquele subúrbio em Dallas, parecia mais novidade aos olhos inconstantes dos internautas. Além disso, um fantasma passou a rondar a vida de DCG, poucos meses depois dele entrar na casa. As grandes empresas que patrocinariam o projeto recuaram com a queda das ações de tecnologia, sobretudo da Nasdaq, fato que estremeceu os pilares do e-comércio.

Outro motivo é que começaram a pipocar, aqui mesmo no Brasil, inúmeros casos de pessoas trancafiadas. Síndrome de fim de milênio, exibicionismo extremo ou um bando de gente que não tem nada melhor a fazer? Não me digam que os investimentos feitos nessas cobaias são apenas para provar a confiabilidade do comércio eletrônico. Besteira. Não foi assim com DotComGuy, que durante todo esse tempo se transformou em uma mercadoria e não foi assim também com os exemplares tupiniquins. O trancado pontocom queria muito mais vender a si próprio do que comprar online!

A prova disso é que depois que saiu da jogada - deve estar meio pirado e com o ego na estratosfera - decidiu que vai 'se virar' agora em um personagem para filmes de desenhos animados e revistas em quadrinho. Pelo menos nesse mundo, a Internet deve ser tão fantástica e perfeita quanto DotComGuy queria que fosse. Não podemos considerar que a experiência dele foi um fiasco, mas também não foi tão revolucionária quanto ele ainda acredita que foi. Em um bilhete de despedida em seu site, o novamente Mitch Maddox pergunta à sociedade se ela irá conseguir conviver com seu retorno ao mundo dos normais. Ele precisa de mais um ano, para retomar a sanidade.

 


 

Coluna atualizada às sextas