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23-02-2001
Longa vida ao e-teatro

"Com que lábios te beijei / Lábios de amor / Lábios de atriz / Com que lábios eu te quis / Com que chorei e ris". Talvez você conheça essa música mas não se lembre de onde? Pois bem, ela faz parte da trilha sonora da peça Cacilda!, encenada pelo grupo Oficina. A montagem esteve recentemente em cartaz no Recife, no Festival de Teatro da cidade, em novembro último. Sabia que você poderá, em breve, assistir à encenação no conforto da sua casa, na TV ou no micro? Isso porque o grupo Oficina terá nove de suas peças mais recentes gravadas em DVD. A história foi divulgada na semana passada pelo Estadão, trazendo uma entrevista com o diretor do grupo, Zé Celso Martinez Corrêa.

Tanto já se falou da força da Internet e da capacidade que a Rede teria de engolir outros meios de comunicação tradicionais, como o jornal e a televisão. O que se viu por aí é que essa força existe, de fato, mas não sentido de exterminar os outros meios e, sim, de complementá-los. São inúmeros os casos de interação/enriquecimento de um assunto quando ele é apresentado em texto, imagem e som, a tão falada multimídia. O caso recente do Grupo Oficina surge como mais uma comprovação.

O próprio diretor do grupo exalta essa integração. "O Oficina se prepara para isso há 20 anos. Sou maníaco pela incorporação de todas as interferências", diz Zé Celso, na entrevista ao Estadão. Mas faz uma ressalva: "Não gosto de teatro filmado. Vamos buscar uma linguagem contemporânea, que teatralize a linguagem do vídeo". E completa: "O teatro resistiu muito pouco sem utilizar a luz elétrica. Mesmo os diretores mais radicais acabaram aderindo. Atualmente, parece muito comum essa utilização, mas imagine a revolução que isso significou para quem acreditava na magia do fogo, das tochas. Coisa semelhante ocorre com a linguagem digital, mas o teatro não vai sobreviver se não for plugado."

A primeira peça a ser gravada será Boca de Ouro, de Nelson Rodrigues, nos próximos dias 09, 10 e 11. Além da gravação, a encenação será transmitida em tempo real pela TV UOL. Ao todo, o projeto - patrocinado pela Petrobras - vai transformar em DVD nove peças do repertório do grupo: Boca de Ouro, Cacilda! (do próprio Zé Celso), Ham-let (William Shakespeare), As Bacantes (Eurípedes), Ela (Jean Genet), Mistérios Gozozos (Oswald de Andrade), Para Dar um Fim no Juízo de Deus (Antonin Artaud), Os Sertões (Euclides da Cunha) e Taniko (Zen Chikue), tudo sob a direção de Tadeu Jungle e Dib Luft.

Várias câmeras serão incorporadas ao teatro, passando despercebidas tanto do elenco como do público. Também contribui para isso o fato de os ensaios e todas as exibições serem filmadas, mesmo sendo efetivamente válidas, para efeito da gravação, somente duas apresentações.

Cabem aqui duas perguntas: Será mesmo que o teatro morrerá caso não se "plugue" na Web? Não seria a afirmação de Zé Celso um tanto fatalista para uma arte que vem sobrevivendo, e se aperfeiçoando e se consolidando há séculos? Que, mesmo com as sabidas dificuldades financeiras, consegue movimentar autores, produtores e público, seja no norte ou no sul do Brasil? E outra: não estaria o próprio diretor contradizendo a tal complementação entre as mídias e, no caso, entre as artes? O fato de as peças serem gravadas e disponibilizadas em DVD pode ser comparado, em certo aspecto, às fitas de videocassete e aos próprios filmes em DVD. O cinema não morreu por causa disso.

 

Coluna atualizada às sextas