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ARTIGO
O
primeiro notebook made in Brazil
Por
Sandro Tanman*
Foi nos idos de 1988 quando a reserva de mercado estava começando
a naufragar e ninguém se dava conta disso. Foi nessa época
que um empresário e um engenheiro brasileiro decidiram que
era hora de produzir em casa o primeiro computador portátil
nacional, (respeitando, é claro, o índice de nacionalização
aceito na época pela extinta SEI, que era de 80%).
Um respeitável empresário paulista e um engenheiro de
hardware fizeram uma viagem a Taiwan e se encontraram com
fabricantes de computadores nos Tigres Asiáticos. Após
alguns meses de muita conversa, acertou-se o nascimento de uma
nova empresa: a Performática Ind. e Com. de Computadores
Ltda., que seria criada para produzir o hardware necessário
para este novo microcomputador portátil.
Todo o ferramental para a produção do gabinete, teclado e
molduras da tela de cristal líquido viria de Taiwan, de
navio, com o peso total de 8 toneladas. Após 6 meses de
espera e de problemas alfandegários chegou-nos o ferramental
mas em que estado!
Antes de continuar, devo informar como entrei nesta história.
Como recém-formado em Engenharia Eletrônica da UFPb tive a
oportunidade de estagiar naquela nascente empresa antes mesmo
das instalações físicas ficarem prontas. Uma relação de
parentesco facilitou o contato com o empresário em questão,
que me fez uma proposta irrecusável. Com um portátil
daqueles (o original chinês) em uma bancada fiquei
completamente extasiado. Aquela tela CGA monocromática de LCD
azul turquesa brilhando como eu nunca tinha visto, e era um
XT8088 com 10MHz! Uma maravilha na época! A decisão tinha
que ser tomada e logo! Pois tudo estava se encaminhando como o
planejado e o processo na SEI (Secretaria Especial de Informática)
tinha sido iniciado.
Ao voltar a Campina Grande, recebi uma cantada logo de saída
para uma bolsa de mestrado para trabalhar em um projeto de
desenvolvimento de computadores para Controle de Processos
Lentos. Lentos?! Isso não me agradava em nada. Eu queria
produzir, sentir em minhas mãos a realização de sonhos de
adolescente e de faculdade. Ver computadores trabalhando,
facilitando a vida das pessoas, completando o gap que se
formava entre o dia-a-dia
e Isaac Asimov. E eu queria tomar parte nisso. Estava
decidido.
Quando cheguei a São Paulo, inicialmente fiquei alguns meses
em uma empresa de assistência técnica em hardware do outro sócio,
o tal engenheiro eletrônico, e daí por diante foi minha
perdição, nunca mais parei de carregar uma chave de fenda,
um pincel e meia dúzia de disquetes na minha maleta. Começamos
a preparar a documentação técnica e todos os esquemas eletrônicos
para enviar a SEI para aprovar o projeto do PXT8088.
Quando estávamos para comemorar a aprovação, uma surpresa
bem do tempo da Reserva de Mercado nos atacou. A SID
Microeletrônica havia lançado no mercado um chipset composto
de 3 chips customizados para placas-mãe XT. Trocando em miúdos,
um monte de circuitos integrados que eles enfiaram em 3
“bichinhos” com 132 perninhas cada.
Um dos chips, o SMD300, que fazia as vezes de placa de vídeo,
tinha uma saída para ligar em telas de cristal líquido e era
“nacional”. O que significa que não poderíamos importar
as placas da Yamaha que eram muito baratas e extremamente
eficientes. Além disso, para perturbar nosso juízo ainda
mais, arranjaram um parceiro comercial para botar mais terra
no nosso angu. A Modatta estava “produzindo” telas de
cristal líquido CGA parecidas com a que tínhamos importado.
Eram nossas únicas peças importadas, o resto era de produção
nacional! Mas mesmo assim não teve jeito, tivemos que
negociar com eles.
Durante alguns meses eu fui semanalmente ao escritório da
SID discutir com um dos engenheiros deles para chegar a um
entendimento. Entendimento? Aquilo era um massacre! Nós tínhamos
que desenvolver uma placa CGA/LCD em caráter emergencial sob
pena de alguém entrar com um produto similar ao nosso e tinha
que ser com o SMD300 da SID.
Resultado: depois de um mês tínhamos nosso protótipo
com o SMD300. Funcionava. Mal. Aí foi a nossa vez, provamos
por A mais B que o SMD300 não tinha condições de ser usado
com LCD, e após 3 meses de brigas mandamos eles... E a
Modatta? Ah, eles “produziam” um LCD sem Backlit, ou seja,
sem iluminação, o que impedia de usar o micro sem luz forte.
Foi-se também.
Bem, quando tudo era um mar de rosas, e eu já morava em
Santos onde estava sendo terminada a sede da fábrica, chega o
famoso ferramental para injetar em plástico ABS o gabinete do
nosso portátil e estampar em aço a parte interna do micro.
Todo enferrujado. Entre Taiwan e o Brasil e o tempo de espera
no Porto de Santos nos custaram mais seis meses de recuperação
dos blocos de aço, para que pudessem ser usados em máquinas
injetoras e em estampadoras para a alma de aço que sustentava
todos os periféricos e placas dentro do gabinete.
Durante todo o ano seguinte, estivemos envolvidos em projetos
de periféricos para a linha de computadores MSX para poder
gerar caixa para a Performática. Foi assim boa parte de 1989,
quando enfim tudo ficou pronto, estávamos com a alma de aço
do portátil toda refeita para alumínio, o que reduzia o peso
final em 2,5 quilos. Muita coisa para um micro que pesava
quase 10. Bem, com 7,5 quilos não era exatamente um portátil,
mas um transportável. A designação continuou sendo Laptop
por motivos óbvios.
Dois anos haviam se passado desde que o projeto tinha sido
começado. Um lote de telas de cristal líquido jazia
esquecido no depósito esperando pela montagem dos micros.
Começamos a produção com alguns testes de adaptação da
alma de alumínio no gabinete e detalhes como tipos de
parafusos e inventar peças de última hora que tornassem o
alumínio menos maleável dentro do gabinete. Um acordo com a
fabricante de teclados francesa Pendar dava-nos uma tecnologia
que reduzia ainda mais o peso final do nosso amigo, utilizando
flexprint, uma fina mas resistente tela de acetato com um
circuito impresso nela onde seriam feitos os contatos das
teclas. Muito bom.
E nesta época estava começando a dar aulas em uma cadeia de
escolas de informática do sul e sudeste. Nesta época o
Windows se chamava Windows 286 e tinha sido clonado do GEN e
do Mac. Mas mesmo assim chegamos a instalar este “Windows”
para AT286 em XT turbinados que usavam os primeiro conceitos
de memória expandida. Dá para imaginar instalar Windows em
computadores com 10MHZ e 640Kbytes de memória? E olha que ele
não travava não!
Voltando a nossa história, tudo estava às mil maravilhas,
mas aí veio o Collor, e nossa verba foi pro saco. Nesse meio
tempo tínhamos em casa mais de 100 kits para montar o PXT e
então começamos a montagem do modo mais artesanal possível.
A placa mãe ficou pronta e era linda! Todos os chips
soquetados para facilitar a manutenção e a fonte foi
produzida no Rio por uma empresa especializada. Tinha uma
grande dificuldade. Para gerar o Backlit da LCD que era o que
mais chamava a atenção era, e ainda é hoje, necessário
gerar uma tensão de corrente alternada (AC) de mais ou menos
100V.
Tecnicamente, colocar isso em uma fonte do tamanho de uma
manga rosa grande, era terrível naquela época, mas se os
chineses conseguiram... Ainda por cima para agüentar a carga
de um HD Seagate ST251 de 40MB (bons tempos dos MFM e RLL) era
dose pra Leão.
Nessa época adquirimos uma prática muito grande em abrir
“blackboxes” o que serviu quando iniciamos a Assistência
Técnica em Recife. Pelo menos conseguimos convencer alguns
clientes a consertar laptops aqui mesmo e também fazer eles
entenderem que vírus não é contagioso e não dá na BIOS ou
que o HD não estava defeituoso porque entrou areia (a cliente
morava na beira da praia).
Bem de volta ao ponto. Não havia mais nada que impedisse que
lançássemos o bichinho. Tínhamos estoque, tecnologia e a
Elebra comprou alguns primeiros para usá-los nas manutenções
de suas Centrais Telefônicas como Data Analizer. Tudo certo,
né? Errado.
Quase todas as duas mil telas de cristal líquido que estavam
estocadas há um ano, apresentavam pequenas manchas no LCD. Em
Santos/SP a umidade média é de 70 a 80%, sabe o que é isso?
Bem, choradeira a parte, algo tinha que ser feito. Tentamos
uma belíssima manhã de Sol, nada. Tentamos o forno de testes
da Metalúrgica, apenas alguns minutos e quase que vira pizza.
Era mofo mesmo, e quando o mofo dá...
Uma semana depois quando tudo parecia perdido, chega o
oficeboy para dizer que a lâmpada da caixa de esquentar papel
da copiadora era muito forte e que quando ele chegava de manhã
para alimentar a copiadora, queimava suas delicadas mãos.
Sabe cena de comédia quando todos se olham ao mesmo tempo?
Preciso dizer que quando a primeira LCD saiu do seu novo
retiro espiritual, toda suada, estava completamente vermelha
(de raiva ou vergonha). Comoção geral. Seis engenheiros
discutindo sobre a “Hefófase Bilateral Estrangulada” que
provocou o fenômeno e como explicar ao Sr. Presidente que
estava tudo acabado. Eis que entra o tal no meio da discussão,
olha para a tela e pergunta se estão todos daltônicos. Antes
de mandar ele para a “casa de noca”, olhamos e lá estava
ela (a tela) toda azulzinha, linda! Bastava uns minutinhos que
ela se recompunha, não guardava rancor a danada!
Funcionou. A copiadora ganhou um caixote para guardar
papel, nós ganhamos um “Dispositivo Térmico de Eliminação
de Mofo” e o oficeboy foi promovido a ajudante de montagem
dos micros. Deixando a brincadeira de lado, a parte séria do
negócio apareceu realmente quando um grande fabricante
nacional se propôs a comprar, em regime de OEM, nossa produção
de gabinetes (explico: Eles queriam colocar sua marca e seu
hardware no nosso gabinete). A diretoria e nós também,
afinal, não havíamos percebido que o maior patrimônio que tínhamos
era realmente o ferramental dos gabinetes e não nosso
hardware. A presidência fechou questão e vetou a proposta.
Outra empresa tentou o mesmo e a teimosia aumentou. Em final
de 1990, a Microtec lançou seu próprio modelo de Laptop.
Aqui se encera nossa história. Não há como negar que
muitos tentaram o que hoje parece uma aventura. Mas não era.
Provar para o mundo que o Brasil tinha tecnologia suficiente
para produzir seus computadores não foi o problema, afinal,
competência tínhamos e muito. A questão estava em
reinventar a roda. Não havia necessidade. Mas o ufanismo de
uns poucos em não ver a realidade que se avizinhava e os
poderosos lobs no Congresso, fizeram de nossa indústria de
computadores um elefante branco, durante muitos anos.
Naquela época o hardware era essencial e o software era
fabricado conforme a demanda de meia-dúzia de clientes. Hoje
sabemos que o hardware se desenvolve sozinho e essencial mesmo
são os softwares e não é a toa que o Brasil produz uma
tecnologia invejável nos programinhas que nossa turma
tupiniquim desenvolve. Em especial no Recife, produz-se o que
há de mais inovador nesta tecnologia.
A Performática cometeu alguns erros de gerenciamento que
foram imperdoáveis naqueles anos: Excesso de estoque, Falta
de uma equipe de marketing efetiva e o que eu chamo de Miopia
Estratégica Comercial.
Ao longo destes anos sobrevivi a uma série destas miopias,
algumas de camarote, outras no picadeiro, mas aprendi que a
humildade é um dos fatores que fazem com que você se previna
quanto às mudanças mais radicais que ainda estão por vir. E
o que foi para nós uma revolução que teria provocado nosso
fracasso, nos dias de hoje seria visto como uma falha básica
nas relações entre comércio e indústria.
*
Sandro Tanman é
Engenheiro de Suporte do Itep / POP-PE da RNP

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