dançando e driblando a crise

BAIANO QUE JÁ FOI DANÇARINO LEVOU RASTEIRA DA CRISE ECONÔMICA, MAS NÃO DESISTE


FAIRVIEW – A crise econômica veio sem aviso prévio. Na esteira do 11 de Setembro. Chegou na surdina, não fez alarde, não escolheu a quem. Quando menos esperava, o baiano Altamirano Barbosa de Braga, 55 anos, se viu à beira da falência. Tem uma loja de produtos brasileiros em Fairview, condado de Bergen, em Nova Jérsei, cujo movimento caiu cerca de 70%. Costumava vender US$ 700 por dia antes de 2008. Hoje, não consegue mais que US$ 250. Dos cinco funcionários que mantinha em turno integral, só um continua, trabalhando meio expediente. Altamirano esteve perto de desistir do negócio, mas seguiu. Aos trancos e barrancos, desafiando os números, fazendo conta de tudo, botando o futuro na ponta do lápis.
“Fui muito afetado pela crise. Não dá para imaginar quanto. Cheguei a achar que teria que fechar a loja, porque não estava conseguindo mantê-la. Houve dia em que não entrou nenhum cliente”, afirma. A clientela do microempresário é formada em 90% por brasileiros, que não gozam do mesmo poder aquisitivo dos americanos e também foram atingidos pela crise. A loja vende comidas típicas, roupas, calçados, passagens de avião e agiliza documentações, mas vive novos tempos. [TEXTO]A quantidade de remessas diárias de dinheiro ao exterior intermediadas pela loja caiu de 80 para 12.


“Tive que me adaptar gastando menos. A crise pegou todo mundo. Muitos brasileiros foram embora por causa da crise. A comunidade murchou, encolheu”, avalia. De acordo com a Brazilian American United Association (Baua), entidade sediada em Newark e com 15 anos de existência, pelo menos dez imigrantes fazem diariamente o caminho de volta ao Brasil por conta da falta de oportunidades nos EUA.
Os problemas econômicos do baiano geraram consequências sociais. Não bastasse a queda de rendimento, sofreu um roubo no qual bandidos levaram US$ 70 mil de seu estabelecimento. Altamirano estava no Brasil e a esposa tinha deixado o dinheiro no local em vez de recolhê-lo, como sempre fazia. Os ladrões invadiram a loja na madrugada e arrombaram o cofre.


Mas o retirante não reclama. Quando deixou a vida difícil na Bahia para trás, não imaginava que teria casa própria, três carros e uma microempresa nos EUA. É casado e tem duas filhas americanas, de 17 e 19 anos, que tocam em uma banda de rock. É cidadão americano desde 1988, beneficiado por uma anistia promovida pelo ex-presidente Ronald Reagan (1981-1988).
Altamirano nasceu numa família pobre de 12 irmãos de sangue e um de criação em Porto Seguro, no sul da Bahia. Precisou trabalhar desde os 14 anos para pôr comida em casa. A situação piorou quando o pai morreu em 8 de dezembro de 1980, “mesmo dia em que John Lennon”, lembra. Altamirano foi office-boy, operário e taxista, até que comprou um boteco no bairro de Água Rasa, em São Paulo. O negócio durou apenas dois anos. Faliu após traficantes transformarem a área em uma boca de fumo.


O baiano, então, resolveu tentar a sorte nos EUA, aonde chegou em 1º de abril de 1984 com visto para quatro anos. Não falava inglês, sentia falta da família, mas logo arrumou emprego como ajudante de cozinha. Lavava prato. Menos de três meses depois, comprou uma no Ypiranga, em São Paulo. “Eu ganhava US$ 150 por semana e minha mãe ligou dizendo que tinha uma casa para vender por US$ 7 mil. Estava barato, os donos estavam com a corda no pescoço. Mas eu não tinha o dinheiro. Uns amigos do trabalho ouviram a conversa e jogaram um pacote de dinheiro no meu colo. Emprestaram US$ 5 mil e fechei o negócio”, recorda o brasileiro.
Em um ano, dívida quitada. O recém-chegado virou cozinheiro. Assim foi por sete anos, até que uma pernambucana apareceu no caminho dele. Juntos, foram trabalhar como taxistas no Queens, em Nova Iorque. A união durou dois anos e meio.

  • RECESSÃO Originada no setor imobiliário dos EUA e agravada pelos gastos em conflitos, crise se alastrou pelo mundo inteiro
    Crédito















Lambada

Separou-se no começo de 1990 e logo depois viajou de férias ao Brasil. Viu in loco a febre da lambada. Voltou aos EUA dançarino. Fuçando oportunidades, encontrou em Manhattan uma casa de shows que procurava casais para apresentações de lambada. Altamirano inscreveu-se. Venceu o torneio. Virou estrela. Passou a ganhar cachê de US$ 400 por noite. Numa das apresentações, conheceu a mulher com quem é casado até hoje, Regina Barbosa, capixaba. O casal ainda abriu um clube de lambada em 1991, mas o projeto esvaiu-se três anos depois, com a decadência do ritmo.


Cidadão americano, estava em sua loja no momento em que as Torres Gêmeas foram atingidas pelos aviões sequestrados por terroristas. Um casal de italianos de quem era amigo perdeu um filho na tragédia. O jovem trabalhava em um escritório no World Trade Center. “Depois disso, eles venderam a casa e foram embora. Foi uma tristeza, é como se tivessem tirado um pedaço do país. Fiquei muito deprimido”, afirma o nordestino.


Crise à parte, Altamirano está ligado aos EUA. Mesmo após se aposentar, não quer voltar ao Brasil. Vive bem no bairro de Fort Lee, em Bergenprimeira capital do cinema nas Américas, onde foi instalado, no fim do século 19, o primeiro estúdio de filmes do país. Nos finais de semana, curte com a família o Parque Interestadual de Palisades, engastado sob uma linha de falésias à margem do Rio Hudson e no pé da imponente Ponte George Washington, uma das conexões entre Nova Jérsei e Nova Iorque. Lá, ele foi fotografado. O lugar é palco de piqueniques promovidos semanalmente por coreanos, 31% da população de Fort Lee. Parte do distrito tornou-se uma koreatown, enclave étnico estabelecido após intenso fluxo migratório deflagrado na última década. “Isso valorizou o local. É um povo muito disciplinado”, assinala Altamirano.

 

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